Não estamos perante uma ilegalidade, mas perante uma assimetria. E essa assimetria corrói a confiança.
A notícia envolvendo Mário Centeno e o Banco de Portugal
dificilmente surpreende, mas não deixa de inquietar. Não tanto pelo que revela
de ilegalidade (que não parece existir), mas pelo que expõe de profundamente
desigual no funcionamento do sistema.
Centeno terá tido cerca de 20 anos de trabalho efetivo no Banco
de Portugal, mas a sua reforma foi calculada com base numa carreira próxima dos
35 anos. Para viabilizar essa solução, o novo governador, Álvaro Santos
Pereira, terá autorizado um mecanismo financeiro que antecipa contribuições
futuras para o fundo de pensões. Tudo isto com um argumento pragmático: evitar
a coexistência institucionalmente incómoda de dois governadores.
Do ponto de vista técnico, a operação pode até ser defensável.
Pode até, como se diz, representar uma poupança futura para a instituição. Mas
é precisamente aqui que começa o problema: quando a racionalidade financeira é
usada para legitimar uma desigualdade evidente.
Porque para o cidadão comum, o sistema funciona de forma
radicalmente diferente. Um trabalhador português com 20 anos de descontos não
pode, por via de um acordo interno, transformar a sua carreira contributiva em
35 anos. Não pode antecipar contribuições futuras para melhorar a sua pensão.
Não pode negociar condições especiais com base na “necessidade institucional”
do seu empregador. O sistema é rígido, automático e, muitas vezes, implacável.
É aqui que emerge a verdadeira questão: não estamos perante uma
ilegalidade, mas perante uma assimetria. E essa assimetria corrói a confiança.
Durante anos, pediu-se aos portugueses contenção, sacrifícios,
reformas estruturais, cortes em pensões e salários. Invocou-se a
sustentabilidade da segurança social, a necessidade de rigor, a
responsabilidade intergeracional. E, no entanto, quando se trata de
determinados perfis, tecnocratas de topo, decisores institucionais, surgem
mecanismos de flexibilidade que não existem para o resto da sociedade.
O argumento de que o Banco de Portugal “poupa a prazo” é, aliás,
revelador. Mesmo que seja verdadeiro, falha no essencial: a perceção de justiça
não se mede apenas em saldos financeiros, mede-se em igualdade de tratamento.
O cidadão comum não compara apenas números. Compara regras.
E a regra que emerge deste caso é simples: há quem jogue com o
regulamento, e há quem esteja preso a ele.
Acresce que o contexto agrava a leitura pública do caso. Não
estamos a falar de um trabalhador em situação vulnerável, nem de uma exceção
humanitária. Estamos a falar de uma figura que ocupou alguns dos mais altos
cargos do Estado, incluindo o de ministro das Finanças, e que, por isso mesmo,
esteve do lado de quem definiu políticas de rigor e disciplina orçamental.
A dissonância é inevitável. Não se trata de questionar a
competência ou o percurso de Mário Centeno. Trata-se de questionar o sistema
que permite, e normaliza, este tipo de soluções. Porque o problema não é
individual. É estrutural.
É o sistema que admite, em determinados círculos, uma engenharia
institucional que permite ajustar regras, antecipar direitos e otimizar
benefícios. E é o mesmo sistema que, para a generalidade dos cidadãos, se
apresenta como inflexível, automático e inevitável.
Esta dualidade alimenta um sentimento perigoso: o de que existem
duas realidades paralelas. Uma, onde as regras são interpretadas; Outra, onde
as regras são impostas.
E quando essa perceção se instala, o impacto vai muito além de
um caso concreto. Atinge a credibilidade das instituições, a confiança no
Estado e, em última instância, a própria coesão social.
Não é por acaso que estes episódios geram indignação
transversal. Não é inveja, como por vezes se sugere. É uma reação à quebra de
um princípio fundamental: o da igualdade perante as regras.
Num Estado de direito, não basta que as decisões sejam legais.
Têm de ser legítimas aos olhos da comunidade. E a legitimidade constrói-se,
antes de mais, na consistência.
Se o discurso público exige sacrifícios, as práticas
institucionais têm de refletir esse mesmo padrão. Caso contrário, instala-se
uma fratura entre o que se diz e o que se faz. E essa fratura é o terreno
fértil para o descrédito.
No fim, a pergunta que fica não é jurídica. É ética: que sistema
queremos? Um em que a sofisticação técnica permite contornar desigualdades, ou
um em que as regras são, de facto, iguais para todos?
Porque enquanto essa resposta não for clara, cada caso como este
será mais do que um episódio. Será um sintoma.
Mário Centeno não é um cidadão comum: o problema não é legal, é moral
Os fenómenos meteorológicos adversos que atingiram o país não foram um capricho súbito da natureza. Foram previstos, anunciados, estudados e reiteradamente comunicados por entidades científicas e meteorológicas.
Talvez sem o querer, Marcelo fez de Gonçalo Mendes Ramires, esse fidalgo hesitante, mais enamorado da retórica do que da ação, um espelho involuntário do seu próprio percurso presidencial.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.