Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca.
(Enviada semanalmente)
Quanto mais Luís Neves arrasta uma resposta, mais espaço dá à desconfiança mas também a novas descobertas, contadas sempre por outrem em tons que não lhe podem ser favoráveis.
Começou a época das férias e, com
ela, aquilo a que a bolha mediática chama silly season: o período em que, por
haver menos notícias, quase tudo parece notícia. Mas este ano há pouco de silly
no estado do Governo. Enquanto o país vai a banhos, vários ministérios acumulam
crises, recuos e trapalhadas. O propalado reformismo da AD começa a parecer
menos uma agenda de mudança do que uma sucessão de improvisos. O problema já
não é este ou aquele ministro. Quando tantos ministérios falham ao mesmo tempo,
o problema passa a ser do primeiro-ministro.
O país agora
ferve com os Ministros da Educação e da Administração Interna. O primeiro decidiu
avançar de forma irrefletida para a classificação digital dos exames. O segundo
quebra a regra de ouro da comunicação de crise – contar
tudo, contar cedo, contá-lo tu próprio. Quanto mais Luís Neves arrasta uma
resposta, mais espaço dá à desconfiança mas também a novas descobertas,
contadas sempre por outrem em tons que não lhe podem ser favoráveis.
Se escolher
ficar com eles no seu Conselho de Ministros, Montenegro terá, por seleção
natural, criado dois novos ministros para-raios para distribuir o mau-olhado. O
primeiro-ministro já tinha duas. A Ministra da Saúde, que conseguiu agravar a
crise no SNS, já era há muito uma carta fora do baralho. Maria do Rosário Palma
Ramalho consumou a sua transformação em cadáver político mais recentemente, com
a inflexibilidade a torná-la a grande derrotada do pacote laboral e da
prestação social única.
Este
honorífico ministerial segue a teoria de que, num contexto de abundância de
informação e escassez de atenção, a manutenção de maus membros do Governo alivia
a pressão sobre todos os outros. Um ministro fragilizado pode ser útil durante
algum tempo: absorve críticas, concentra atenções e protege o chefe do Governo.
Mas, quando os casos se multiplicam, deixa de ser para-raios e passa a ser
prova de falta de comando.
De
facto, não é só nestas 4 pastas que o Governo tem vindo a conhecer
dificuldades. Na Cultura, Juventude e Desporto, há organismos inteiros sem
direção nomeada, concursos concluídos sem decisão e instituições à espera de
comando. Talvez isso ajude a explicar a facilidade com que se põe em causa a
gratuitidade dos museus num dia e se recua poucos dias depois.
Esta
inconsistência dos compromissos governamentais será cada vez mais comum, com as
contas
públicas a apertarem nos próximos meses. Joaquim Miranda Sarmento tem pouco
jeito para ser o mau da fita, tendo deixado a despesa pública ficar fora de
controlo. Quis ser o Centeno da direita. Arrisca-se a ficar como o ministro que
herdou excedente e entregou défice.
Para tal, não
ajudará o fracasso na execução do PRR, que terá de ser reprogramado
à última hora para evitar ter de devolver dinheiro, ou o estado alarmante
do Portugal
2030, que em junho estava com quase metade da execução que teve o Portugal
2020 no mesmo período. Se Castro Almeida está a derrapar, José Manuel Fernandes
nem se fala. Na agricultura, os apoios diretos estão tão atrasados que muitos
dos afetados pelos incêndios do ano passado ainda não receberam o seu dinheiro.
Com a época de incêndios já em plena força, nem os apoios à limpeza da floresta
foram sequer lançados. Entretanto, fica por fazer a reforma da floresta ou a
aposta na economia do mar.
Claro
que a palavra “reforma” em lado algum parece tão irónica do que quando falamos
de Gonçalo Matias. Este tinha entrado no Governo com reputação de seriedade,
após anos a presidir à Fundação Francisco Manuel dos Santos. Decorrido um ano, porém,
o Estado não está menos pesado, paralisado ou pulverizado. A reforma ficou-se
pela fusão atabalhoada de organismos e mesmo assim em poucos ministérios. Fora
isso, o Ministro anunciou um “Espaço Empresa” que
já existia e uma reforma do Tribunal de Contas cujas potenciais virtudes se
perdem no meio de uma agressividade desenfreada.
A
relativa inutilidade destes Ministros é chata para os mais atentos, mas podia passar
despercebida. Isso não acontecerá nas Infraestruturas ou na Habitação. Nas
infraestruturas porque o Governo andou pelo país fora a prometer estradas para
as quais não tem dinheiro, querendo agora usar as portagens de uma região para
pagar o investimento noutra. Na habitação porque os preços continuam a galopar
a um ritmo cada vez maior. Qual a solução que vemos do Governo? A habitação
pública está parada, desde que António Costa a inscreveu no PRR. Já a
construção privada desespera, com a AT sempre a mudar
interpretações e o Governo a emendar leis que aprovou há poucos meses.
Nos
últimos dias, porém, tem-se falado de um problema bem maior para Pinto Luz. Em
Carcavelos, numa das frentes de mar mais caras do país, o Ministro nos seus
tempos idos de autarca vendeu 823 metros quadrados por 312,7 mil euros. Vendeu
em 2020, com base em avaliações de 2010, a que acrescentou 2 milhões de euros
em isenções fiscais. Vendeu e licenciou, mas não podia vender nem licenciar
naqueles termos, conforme ação
do Ministério Público que pede mesmo a demolição dos apartamentos já
construídos. Com buscas
já realizadas em 2025, está mesmo a ser investigada
matéria criminal.
Montenegro
tem, portanto, bastante com que se entreter enquanto o país vai a banhos. Mas
não lhe bastará gerir danos, antecipar casos ou apagar incêndios ministeriais. Tem
de dirimir rapidamente as fragilidades pessoais que se encontram dentro do seu
Conselho de Ministros. Tem de apresentar novas iniciativas que atenuem o custo
de vida, estimulem o investimento e melhorem os serviços públicos. Tem de
decidir se quer liderar um Governo ou apenas sobreviver a ele.
O país pode
não querer eleições. Mas também não quer um Governo em modo de espera, incapaz
de reformar, executar e responder. A silly season passa depressa. A
falta de liderança fica.
Quanto mais Luís Neves arrasta uma resposta, mais espaço dá à desconfiança mas também a novas descobertas, contadas sempre por outrem em tons que não lhe podem ser favoráveis.
Os casos dos cartéis mostram o que acontece quando uma entidade reguladora tem coragem, mas também o que se perde quando o sistema político não lhe dá os instrumentos necessários para fazer valer as suas decisões.
Era um desastre anunciado e Fernando Alexandre decidiu seguir em frente, comprometendo a normalidade da vida de dezenas de milhares de professores e alunos.
Podem fazer o pino ou fazerem-se de estátuas para tentar conter a despesa e salvar a situação. Contudo, isso também não resolverá problemas às pessoas nem facilita a vida a governos em difíceis circunstâncias.
Tanto em 2020 como em 2025, o INE fez grandes correções às suas estimativas anteriores, aumentando retrospetivamente o crescimento de praticamente todos os anos.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.