O novo diretor nacional da PSP arruinou-se com os fretes que fez ao Governo.
Quando alguém perde a cabeça, é mau para ele. Quando quem
perde a cabeça é a força armada, é mau para todos. Na saga das manifestações
pela habitação, a PSP está de cabeça perdida. Depois do Presidente da República
(após silêncio prolongado e com muitas cautelas) ter dito que não
gostou do que viu com as cargas policiais sobre os manifestantes, a Polícia
de Segurança Pública veio
defender-se nas redes sociais, com uma publicação que mostra, com imagens
de várias fontes, manifestantes a atirar objetos à polícia. Curiosamente, todas
as agressões mostradas no vídeo da PSP ocorreram depois de se terem iniciado as
cargas policiais, não antes. Quando a polícia traz violência para a rua, há
quem reaja com violência na rua. Não é admissível, claro, mas é inevitável.
A publicação da PSP é um desafio óbvio e grave a António
José Seguro. É a polícia a dirigir-se ao tribunal da opinião pública para
desautorizar o chefe do Estado pela crítica (leve e prudente) que fez à atuação
desproporcionada das forças de segurança nas manifestações do último
fim-de-semana. O desplante abre uma crise institucional séria: a polícia não
pode entrar em discussão com o Presidente da República, através de vídeos
incendiários nas redes sociais. Muito menos em relação a uma atuação que está
sob escrutínio da Inspeção-Geral da Administração Interna, motivou a
abertura de um inquérito
do Ministério Público e uma intervenção
urgente da Provedora de Justiça. Mais de 200 advogados, juristas e
profissionais da Justiça publicaram
uma carta – entretanto já assinada por mais de mil juristas – apontando
ataques ao direito de reunião e manifestação. A velha anedota sugere que, onde
há 200 advogados, há 400 opiniões. Ver mais de mil a assumirem a mesma posição
é significativo: a PSP está na defensiva.
Não foi isto que nos prometeram. O novo diretor nacional da
Polícia de Segurança Pública, o superintendente-chefe Pedro Moura, tomou
posse há duas semanas lembrando que “a autoridade da PSP emana da lei, mas
a sua legitimidade nasce da confiança depositada pelos cidadãos”. Na altura,
prometeu que “a nossa proximidade será real, empática e inclusiva, consolidando
uma cultura de transparência e respeito absoluto pelos direitos humanos”. Era
uma promessa urgente, depois de casos reiterados de violência policial que
culminaram com o
escândalo vergonhoso da esquadra do Rato (e, não sejamos ingénuos, não é só
nessa esquadra que há ratos). O anúncio de uma nova era durou nem dois dias: no
dia 15, foi a primeira grande carga policial no Porto. Daí para cá, é o que se
vê.
Pedro Moura está cercado, não por maus polícias com gosto
pela violência, mas pela sua própria obediência a um Governo que lhe exige
fretes. Todos ouvimos o xerife Luís Neves proclamar que as acampadas iam
acabar. Foi o Governo, não a PSP, que descobriu agora uma interpretação
legalista, nova e ilegítima do decreto-lei que regula o direito de manifestação
e que nunca, em 52 anos, serviu para impedir vigílias ou acampadas que duraram vários
dias ou várias semanas. O problema não está na lei, está num Governo que
decidiu que não queria estes manifestantes, com esta causa, nas ruas neste
momento – ou porque tem medo de que Portugal se torne na França (a ponto de ser
o próprio Estado a promover a escalada de violência) ou porque não tem (como
não têm os outros partidos) nada a apresentar no problema da habitação que não
seja apontar culpas ao vizinho.
O diretor nacional da PSP fez suas as dores do Governo e assumiu
a missão de limpar as ruas e provocar os manifestantes. Justifica as bastonadas
com um crime de desobediência a que o próprio Ministério Público dá tanto
relevo que propôs
de imediato a suspensão dos processos a todos os detidos. Como notou o
advogado dos manifestantes, Ricardo Sá Fernandes, “é evidente que isto foi uma
ordem que veio do Governo, que veio do ministro da Administração Interna, e é
lamentável que isso tenha acontecido”. Igualmente lamentável é que o mais alto
responsável da PSP tenha aceitado fazer esta figura, degradando a polícia e sujando
as mãos dos seus agentes.
O que devia Pedro Moura ter feito? O mesmo que o ministro que
lhe deu posse fazia (ou proclamava que fazia) quando era diretor nacional da
Polícia Judiciária: recusar fretes ao poder político, custe a quem custar. E,
por muito que o Governo queira inventar interpretações inovadoras de decretos
cinquentenários, deixar claro que, em nenhuma circunstância a polícia usaria
força contra quem não estivesse a usá-la. Agora, o diretor nacional que tomou
posse há duas semanas prometendo o “respeito absoluto pelos direitos humanos”
torna-se o justiceiro que manda bater de madrugada para fazer as vontadinhas a
quem o nomeou. Eis o que resta do promissor Pedro Moura: um sabujo obediente,
cujo crédito e carácter não resistiram 15 dias.
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