Um país envelhecido, mais preocupado em manter o que tem do que em ter o que lhe falta, deixa-se ir na inércia.
Maricarmen não voltou a casa. A idosa de 87 anos despejada
do apartamento onde vivia há 71, em Madrid, pelo fundo de investimento que
havia comprado a habitação e lhe aumentou a renda em 276%, morreu
ontem à noite no hospital onde estava internada desde o seu despejo. O seu
caso, que parecia escrito por Dickens como caricatura da insensibilidade social
dos tempos que correm, levantou
um enorme movimento de protesto por toda a Espanha. O Governo tentou
aprovar novas medidas de proteção dos inquilinos e, chumbado pelo Parlamento, segue
para eleições antecipadas. Antes disso, vai haver uma greve
geral pelo direito à habitação e quase
um milhão de pessoas saiu à rua em manifestações por todo o país. Para
Maricarmen, já foi tarde. O fundo de investimento que a despejou até já tinha
concordado em deixá-la regressar à casa de sempre, mas o tempo da idosa esgotou-se
na noite passada.
Ao lado, em França, manifestações de estudantes iniciadas há
semanas contra a falta de professores e as más condições das escolas continuam
a alastrar. Também com eleições no horizonte, os protestos estudantis tornaram-se
palco para confrontos que misturam reivindicações legítimas e marchas
pacíficas com radicalismos violentos e uma vontade de confrontar a polícia e o
próprio Estado. O Governo vai tentando acertar a mão na resposta policial, debaixo
de acusações de violência desproporcional, numa conflitualidade social dominada
pelos extremos do espectro político. É difícil antever como as reivindicações
legítimas dos estudantes de liceu serão atendidas, neste clima de todos contra
todos.
Por cá, reina a paz dos anjos. Portugal está no
topo europeu das subidas de preços do imobiliário, mas não temos greves
gerais, nem manifestações, nem acampamentos de protesto nas praças da capital. Depois
de uma época de exames desastrosa, fruto de uma inovação mal-amanhada e de
improviso, para gastar dinheiro do PRR, houve
alunos sem vaga nas escolas para o novo ano letivo e Governo e sindicatos
não se entendem sequer nos números de estudantes que estão sem professor a pelo
menos uma disciplina. Há escolas sobrelotadas e outras sem obras desde que a
festa da Parque Escolar, nos tempos sombrios de Sócrates, acabou com
derrapagens multimilionárias de custos e a interrupção dos investimentos. O
acesso ao ensino superior é cada vez mais privilégio de quem tem berço e
dinheiro, mas em Portugal não há barricadas, nem protestos, e a juventude vive
em obediente sossego.
No nosso cantinho, as emergências nacionais – do acesso à
habitação ao estado do ensino, passando pelo estado comatoso da Saúde e o aumento
geral do custo de vida – esperam a sua vez no debate público. Ficam para depois
de destrinçarmos o psicodrama da seleção nacional de futebol e de apurarmos se
as cunhas
ao ex-secretário de Estado da Saúde Lacerda Sales são, afinal, cunhas do
bem ou do mal, a condenar ou a celebrar. É esta a nossa escala de prioridades.
Não tenho o menor entusiasmo em ver barricadas e cargas
policiais nas ruas de Lisboa ou greves gerais pelo direito à habitação que tem
sido, na prática, olimpicamente desprezado quer pela esquerda, quer pela
direita – em Portugal como em Espanha e pela Europa fora. Os portugueses não
gostam de manifestações nem de desordem pública; e menos ainda gostam de se
comprometer com uma posição ou assumirem um confronto. Há sempre medo: de
ânimos exaltados, de represálias, de se ficar com o nome numa lista negra, de
ficar mal visto pelos vizinhos. José Gil sintetizou esta apatia na “não
inscrição” dos portugueses, esse instinto muito nosso de nem carne nem peixe,
de não assumimos posição até vermos onde param as modas.
O povo é sereno, e facilmente distraído com fumaça. Somos um
dos países mais envelhecidos do mundo, o que seguramente ajuda a explicar esta
inércia dormente, a falta de um sobressalto cívico. Mesmo que o garrote vá
apertando, o instinto nacional é tentar ir protegendo o pouco que ainda temos,
mais do que reivindicar tudo o que nos falta. Esse sangue-frio podia ser um
ativo valioso, se nos desse para discutir os problemas a fundo, sem
radicalismos, com dados em cima da mesa, para testar e desenvolver política
pública que resolva (ou, pelo menos, que começasse a resolver) os problemas.
Nem isso. Vivemos um silêncio pacato, agitado por discussões performativas
entre políticos para consumo mediático e eleitoral, que deixa tudo por fazer.
Portugal precisa tanto de tumultos nas ruas como precisa de
cartazes de apoio a Cristiano Ronaldo nas rotundas. As convulsões que se vivem
em Espanha ou França não nos fazem falta. O que faz falta é discussão pública
séria e consequente sobre os problemas que continuamos a adiar, enquanto nos
entretemos com superficialidades. Essa militância do realismo e da seriedade,
entre nós, já seria absolutamente revolucionária.
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