Há países onde a justiça é cega. Em Portugal, no caso de José Sócrates, é sobretudo paciente. Paciente ao ponto de já roçar o estoicismo. Ou a resignação. Na verdade, é mais o mosoquismo.
Nos últimos dias, tivemos mais um episódio digno de teatro do absurdo: dois advogados oficiosos ao mesmo tempo no mesmo julgamento, nomeados por entidades diferentes, como se o tribunal fosse uma espécie de feira jurídica improvisada. Falta apenas distribuir senhas à entrada. Inacreditavelmente, isto beneficiou o arguido em questão.
Mas isto é só a cereja no topo de um bolo que já leva anos a ser cozinhado. Desde novembro, e até à semana passada, Sócrates tinha tido sete advogados. Sete. Não é defesa, é gestão de calendário. Cada saída, cada substituição, cada incidente: mais uns dias, mais umas semanas, mais um empurrãozinho para o que realmente interessa.
A prescrição.
Alguns crimes já foram à vida. Outros preparam-se para fazer o mesmo, com data marcada já ali em Junho de 2026. Não porque não haja indícios, não porque o processo não exista (existe há mais de uma década), mas porque o sistema permite que se brinque com ele até ao limite.
E aqui convém dizer o óbvio: isto não é sobre direito de defesa. É sobre gozar com o Estado de Direito. É sobre perceber que, em Portugal, com os mecanismos certos e a dose certa de paciência e bolsos fundos, a justiça transforma-se numa maratona onde ganha quem conseguir correr menos.
Sócrates não está apenas a defender-se. Está a demonstrar, com uma eficácia quase pedagógica, como transformar o processo penal numa arte de desgaste. Uma espécie de “manual prático da prescrição” em vários volumes.
E o sistema? Assiste. Regista. Adia. Nomeia mais um advogado, se for preciso.
No fim, quando mais crimes prescreverem e o processo se esvaziar por inércia, haverá quem diga que “a justiça funcionou”. Funcionou, sim — mas para quem percebeu como a usar. Depois perguntam-se por que razão os portugueses desconfiam das instituições.
Talvez porque, à vista de todos, há quem consiga transformar a justiça num jogo. E, pior do que isso, ganhá-lo. Contra quem? Contra todos nós.
A fórmula política (PS ou PSD, é tudo igual, aqui) é esta: aumenta-se o salário mínimo, mantêm-se os restantes salários quase iguais e proclama-se a valorização do trabalho.
A diferença nunca esteve nos princípios. Esteve apenas no clube. Pedro Sánchez foi tratado durante anos como o zénite moral da esquerda que ignorou a forma como ele vendeu os mais basilares princípios do unionismo espanhol para se manter no poder.
Numa metamorfose que merece estudo, André Ventura protagoniza uma conversão ideológica. André Ventura merece sobretudo um megafone emprestado pela CGTP e um lugar destacado na próxima greve geral.
Depois de oito anos como Presidente da Câmara de Lisboa e oito anos como Primeiro-Ministro, Costa descobriu o problema da habitação num discurso em Bruxelas. Dezasseis anos. Dois mandatos autárquicos e dois governamentais. Uma cidade inteira e um país inteiro. E foi preciso uma cadeira no Conselho Europeu para a epifania chegar.
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