A emergência exige preparação, continuidade e competência. Três coisas que não sobrevivem bem a um sistema onde cada Governo sente necessidade de “limpar” a casa, mesmo que isso implique mandar fora quem sabe onde estão os extintores (ou as bombas de água).
O Estado português é uma entidade curiosa. Está sempre presente… excepto quando é preciso. A tempestade Kristin (e agora a Leonardo) voltou a expor esse dom nacional para a ausência organizada. Casas inundadas, populações isoladas, estradas cortadas, falta de electricidade e uma resposta pública que oscilou entre o improviso e o silêncio.
Na zona de Leiria, devastada em poucas horas, passou um dia inteiro sem que quase ninguém na imprensa achasse o tema digno de atenção. Salvo honrosas exceções, o país mediático pareceu não notar que pessoas e empresas tinham perdido tudo em inundações e ventanias. No país do centralismo, a imprensa alinhou no “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”. A calamidade não tinha soundbite, logo não existia. Não deixa de ser irónico que, apesar de ter sido ignorada, esta tempestade tenha suprimido por completo a segunda volta das Presidenciais do carrossel noticioso. Leiria existe. Alcácer do Sal, Portalegre, Coimbra, Águeda, Santarém, Alcoutim, Arruda dos Vinhos e Vila Franca de Xira, também. O país não é só Lisboa. Nunca foi.
Há que dizê-lo: a precipitação atingiu níveis absolutamente absurdos. Vai daí, os rios galgaram as margens e inundaram tudo o que há ao seu redor. Ouvindo meteorologistas, percebemos que este fenómeno é praticamente inaudito no nosso país e, como tal, difícil de precaver. Contudo, à semelhança dos incêndios (esses, sim, parecem um fado de verão), o Estado falhou, sobretudo nas primeiras horas: nos meios, na coordenação e na comunicação. Que o diga a Ministra da Administração Interna, que durante 48 horas não falou, e, quando falou, percebeu-se rapidamente por que é que não falou.
Entretanto, o Estado pobre — esse ente franzino e sem recursos para apoiar de forma célere quem precisa — convive harmoniosamente com o Estado pródigo, aquele que nunca falta quando é para injetar milhões na TAP ou manter uma CP estruturalmente deficitária, sempre a precisar de mais um reforço extraordinário, mais um perdão de dívida, mais uma promessa de que agora é que vai ser. Para emergências reais, para pessoas reais, para situações reais, o cofre está misteriosamente vazio. Para inutilidades politicamente convenientes, o dinheiro aparece com a pontualidade das cobranças da Autoridade Tributária, por sinal, a única entidade do Estado que nunca falha.
Mas talvez o problema não seja apenas o dinheiro. Talvez seja, também, quem o gere. Em estruturas como a Proteção Civil, a cada mudança de Governo repete-se o ritual: mudam-se os quadros intermédios, não por avaliação de mérito ou competência, mas por afinidade partidária. Trocam-se pessoas que conhecem o terreno por pessoas que conhecem os corredores. Ganha-se em alinhamento político, o que se perde em memória institucional. Problema: dar lugares aos boys não é tão vantajoso como ter conhecimento de gestão de catástrofes.
Não se admirem quando tudo falha ao mesmo tempo. A emergência não espera por nomeações, nem por equilíbrios partidários, nem por aprendizagens aceleradas em contexto real. A emergência exige preparação, continuidade e competência. Três coisas que não sobrevivem bem a um sistema onde cada Governo sente necessidade de “limpar” a casa, mesmo que isso implique mandar fora quem sabe onde estão os extintores (ou as bombas de água).
No fim, o Estado lá aparece. Para anunciar apoios que demoram, para prometer avaliações que tardam, para explicar por que é que desta vez foi diferente. Embora seja sempre igual.
E nós seguimos em frente, confiantes de que, na próxima tempestade, incêndio ou inundação, tudo estará melhor preparado. Afinal, o Estado garante que aprendeu a lição. Só que não. Como sempre. “Desenrascar” é uma palavra intraduzível para outras línguas. Começa a ser óbvio porquê.
A fórmula política (PS ou PSD, é tudo igual, aqui) é esta: aumenta-se o salário mínimo, mantêm-se os restantes salários quase iguais e proclama-se a valorização do trabalho.
A diferença nunca esteve nos princípios. Esteve apenas no clube. Pedro Sánchez foi tratado durante anos como o zénite moral da esquerda que ignorou a forma como ele vendeu os mais basilares princípios do unionismo espanhol para se manter no poder.
Numa metamorfose que merece estudo, André Ventura protagoniza uma conversão ideológica. André Ventura merece sobretudo um megafone emprestado pela CGTP e um lugar destacado na próxima greve geral.
Depois de oito anos como Presidente da Câmara de Lisboa e oito anos como Primeiro-Ministro, Costa descobriu o problema da habitação num discurso em Bruxelas. Dezasseis anos. Dois mandatos autárquicos e dois governamentais. Uma cidade inteira e um país inteiro. E foi preciso uma cadeira no Conselho Europeu para a epifania chegar.
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