Sábado – Pense por si

Eurico Reis
Eurico Reis Juiz Desembargador Jubilado
12 de abril de 2026 às 08:24

Incompreensões

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Edição de 17 a 23 de março

Estamos, felizmente, muito longe dos tempos miseráveis do Estado Novo e talvez ainda haja memória colectiva suficiente do modo como essa corja de patifes tratava os portugueses e, sobretudo, as portuguesas.

Há realmente coisas que não consigo compreender.

Como nunca me cansarei de repetir, existem razões mais do que suficientes para os portugueses e as portuguesas estarem “fartos até aos cabelos” dos dirigentes partidários (e dos respectivos partidos) que, até hoje, se revezaram no poder a partir do dia 11 de março de 1975.

Efectivamente, até ao 28 de setembro de 1974, “as coisas” iam correndo sem grandes sobressaltos e as únicas promessas que foram feitas entre o 25 de Abril (o de 1974 e mais nenhum) e essa data reconduziam-se tão simplesmente a terminar a guerra colonial e democratizar e desenvolver o país.

Eram os três D´s (descolonizar, democratizar e desenvolver) saídos do III Congresso da Oposição Democrática realizado em Aveiro entre os dias 4 e 8 de abril de 1973.

E se a primeira dessas promessas era muito concreta e bem definida, as outras duas nem por isso.

Contudo, as duas tentativas de golpe de Estado, ambas falhadas, desencadeadas pelos spinolistas em 28 de setembro de 1974 (mas iniciada com a demissão do primeiro-ministro Adelino da Palma Carlos, que provocou a queda do I Governo Provisório a 18 de julho de 1974, apenas 56 dias após a tomada de posse do mesmo) e em 11 de março de 1975 (esta com utilização de meios militares da Força Aérea - aviões e paraquedistas), vieram acelerar o processo político iniciado com o derrube do governo presidido por Marcelo Caetano, criando condições para a abertura de uma crise revolucionária - o chamado PREC – que acabou por ser encerrada a 25 de novembro de 1975.

Só por curiosidade, esse PREC (Processo Revolucionário Em Curso), que durou uns escassos 8 meses e 14 dias, não pode, de todo, ser qualificado, em termos de ciência política, como uma revolução, nem sequer uma revolução falhada.

E aqui começa a primeira mentira.

Durante esse curto período temporal, foi prometido aos portugueses e às portuguesas que estava a ser desencadeada uma revolução que iria conduzir, sem qualquer margem para dúvidas, à construção de uma sociedade socialista, sem classes sociais.

E porque, por essa altura, o regime soviético e de todos os outros países do Pacto de Varsóvia, já não era atractivo, esse socialismo seria um modelo original português.

Uma coisa à nossa maneira, cheia de “conquistas irreversíveis de Abril”.

E, caramba, até o CDS (que acabaria por ser o único partido que votou contra a Constituição da República aprovada a 2 de abril de 1976) prometia à população uma sociedade sem classes, isto é, sem ricos e sem pobres.

Os mais velhos e as mais velhas lembrar-se-ão seguramente desses tempos gloriosos da campanha eleitoral para a eleição da Assembleia Constituinte.

Estamos a ver qual é o estado actual dessas “conquistas irreversíveis de Abril”, sendo certo que André Ventura e a restante camarilha do Chega até as palavras escritas na Constituição alusivas aos direitos económicos, sociais e culturais querem eliminar.

E vamos ver se esse não vai ser, afinal, também o desígnio do PSD de Luís Montenegro e dos seus companheiros de jornada no interior desse partido.

Se isso acabar por acontecer – o que será péssimo e muito perigoso para a enorme maioria da população portuguesa, actual e vindoura – ficará comprovado, lamentavelmente comprovado, que tais conquistas civilizacionais (porque é isso que elas verdadeiramente são) só se tornaram possíveis porque durante esses 8 meses e 14 dias existiu o “guarda-chuva do MFA” a dar guarida às movimentações sociais que então tiveram lugar, e não por força dessas movimentações populares.

Os mais novos podem rir-se à vontade, mas essa expressão (“guarda-chuva do MFA”) tornou-se um lugar-comum nessa altura e era usada tanto pela chamada “esquerda militar” derrotada no 25 de novembro de 1975, como pelo auto-designado “Grupo dos Nove”, um dos vencedores desse embate politico-militar.

Outros tempos sem dúvida, mas, inegavelmente, as promessas então apresentadas não foram cumpridas.

E depois veio “a Europa connosco” e a adesão às Comunidades Europeias, que vieram dar origem à actual União Europeia, cada vez mais alargada – e cada vez menos discutida por todos os partidos sem excepção e sem que tenha sido criado um qualquer movimento social que torne possível um debate sério sobre o que queremos da UE e para o que deve servir essa organização de Estados nacionais.

E nem mesmo estes vertiginosos e altamente perigosos tempos de total irracionalidade egoísta e selvagem quebram esse torpor imobilista.

E, caramba, como é tão necessário proceder, aqui e agora, a essa discussão séria desses problemas.

Neste momento, nós europeus (todos e todas, sem excepção) estarmos “encostados às cordas” e “termos uma faca no pescoço”?

Será que isso não é já suficiente para nos fazer acordar?

Mas, voltando à campanha da “Europa connosco” e à adesão às Comunidades Europeias, nessa altura foi-nos prometido que, mais cedo do que tarde, iríamos “convergir” para níveis de vida europeus.

Iríamos ser tão ricos como os ricos.

Nada disso aconteceu e, depois de um curto período áureo, a qualidade de vida dos portugueses e das portuguesas tornou-se cada vez mais precária.

E o pior de tudo é que fomos acusados de “viver para além das nossas posses”.

Fantástico!!! Simplesmente fantástico!!!

Estamos, felizmente, muito longe dos tempos miseráveis do Estado Novo e talvez ainda haja memória colectiva suficiente do modo como essa corja de patifes tratava os portugueses e, sobretudo, as portuguesas.

É terá sido por isso que a infame estratégia dos “três Salazares” do racista, xenófobo e intolerante André Ventura terá falhado tão redondamente.

Não obstante e em suma, e repetindo mais uma vez o que já abundantemente escrevi, existem razões mais do que justas e suficientes para que os portugueses e as portuguesas já não consigam suportar os partidos que, rotativamente, têm ocupado o poder após o tal dia 11 de março de 1975, mas que está a ser errada e propositada e malevolamente apontado como sendo algo cuja “culpa” cabe ao golpe militar de abril de 1974.

Isto é, ao 25 de Abril.

Todavia, o que é para mim incompreensível é que haja tanta gente a votar em criaturas canalhas e que comprovadamente praticam, voluntariamente e de forma reiterada, actos de igual ou pior gravidade que essas outras pessoas que esses votantes tanto abominam.

E essa incompreensão existe apesar de, relembro, eu sustentar convictamente que todos os seres humanos nascem egoístas, selvagens e tendencialmente irracionais e que o sistema de ensino tem vindo a estimular essas pulsões primordiais, sendo tudo agravado pelas redes sociais, nomeadamente a Meta, dona do Facebook e Instagram, e o Google, empresa dona do YouTube, que nos EUA foram condenadas a pagar indenizações milionárias a uma jovem que sofreu enormes danos mentais e chegou a ter pensamentos suicidas por seu uso de redes sociais e por, para além disso, ter ficado provado que intencionalmente viciaram crianças no uso desenfreado dessas redes sociais.

Trata-se realmente, a meu ver, de irracionalidade a mais.

Ou será que já chegámos a um tal estado de fanatismo auto-justificativo de natureza quase religiosa (ou religiosa mesmo) como aquele que é característico dos republicanos MAGA seguidores de Donald Trump, e que levou este último a, em 23 de janeiro de 2016, gabar-se de que “poderia matar alguém na 5ª Avenida e não perderia votos”?

Será que é esse o sentimento dos votantes do Chega? Será que chegámos mesmo a esse ponto extremo de irracional fanatismo?

Claro que existem problemas em Portugal. E de que maneira!!!

Mas não serão André Ventura e o Chega que os resolverão. Bem pelo contrário.

O que será que vai ser necessário para que esse facto inegável e incontestável se torne algo claramente perceptível para os votantes do Chega que não são fascistas defensores do Estado Novo?

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