Desinformação espalhada online e localmente cria cada vez mais resistência às medidas de segurança.
Uma onda de desinformação está a levar a população da República Democrática do Congo a acreditar que o surto de ébola não é real e que se trata de um esquema montado pelos profissionais de saúde para ganharem dinheiro. Há relatos de médicos agredidos e centros de tratamento incendiados. Um agente da polícia já morreu durante os confrontos.
O hospital geral de Rwampara, em Bunia, foi um dos centros incendiadosAP Photo/Dirole Lotsima Dieudonne
“Eles agarraram-me, começaram a dar-me murros e bater com pás”, contou à BBC um voluntário da Cruz Vermelha, Daniel Uyirwoth Welo. Os confrontos ocorreram quando os profissionais de saúde tentavam realizar um funeral em condições de segurança, mas a comunidade acreditava que o caixão estava vazio, fazendo parte de um plano para manipular as pessoas.
O surto de ébola no país já infetou mais de 1.750 pessoas e fez cerca de 600 mortos, mas, devido a rumores locais e online, a comunidade deixou de acreditar que o vírus existe realmente. Os boatos sugerem que os profissionais de saúde estão a infetar as pessoas propositadamente e a retirar os órgãos dos mortos.
Aumenta, por isso, a resistência à adoção de medidas de segurança, sobretudo no que diz respeito aos funerais. A cultura local valoriza rituais de despedida que incluem contacto direto com o cadáver, o que potencia a propagação do vírus. Sensibilizar a comunidade para o risco dessa prática já era uma das grandes dificuldades do corpo médico e agora a população rejeita ainda mais as indicações. A desconfiança afasta também as pessoas de procurar ajuda quando surgem sintomas, agravando o estado de saúde até ao limite máximo que aguentarem.
Além de agressões a profissionais de saúde, a população pegou fogo a um centro médico em Bafwabango, na província de Ituri, o epicentro do surto. Em maio, o hospital geral de Rwampara, em Bunia, também ficou em chamas. A imprensa internacional avança que um agente da polícia foi morto na sequência de confrontos.
O ébola é uma febre hemorrágica com taxa de mortalidade entre 25% e 90%. Transmite-se através do contacto direto de fluidos corporais de pessoas ou animais infetados, mortos ou vivos, e do contacto com superfícies, objetos ou roupas contaminadas. Relações sexuais não protegidas até três meses depois do contágio também podem levar à transmissão da doença.
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