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A afirmação é dura, mas os factos sustentam-na. O AMALIA alucina. Inventa factos, referências, acontecimentos e explicações com a mesma fluência com que acerta. Reproduz enviesamentos, pode gerar conteúdos tóxicos ou discriminatórios e é vulnerável a manipulação através de instruções maliciosas.
Portugal gastou 5,5 milhões de euros para ter um modelo de inteligência artificial com bandeira nacional. Chama-se AMALIA e foi apresentado ao país como o grande modelo de linguagem português, peça central de uma ambição maior: a soberania digital. A expressão é bonita, solene, quase patriótica. O problema é que, olhando para o que o modelo efetivamente oferece, a conclusão torna-se difícil de evitar: até prova em contrário, foi dinheiro deitado ao lixo.
A afirmação é dura, mas os factos sustentam-na. O AMALIA alucina. Inventa factos, referências, acontecimentos e explicações com a mesma fluência com que acerta. Reproduz enviesamentos, pode gerar conteúdos tóxicos ou discriminatórios e é vulnerável a manipulação através de instruções maliciosas. Os próprios responsáveis reconhecem que não deve ser usado como fonte única de informação nem tomar decisões críticas sem supervisão humana. Por outras palavras, o contribuinte financiou uma ferramenta que exige vigilância permanente e desconfiança metódica, e que praticamente nada tem para mostrar em troca.
Dir-se-á, com razão, que estas limitações não são um exclusivo português. O ChatGPT, o Claude e o Gemini também erram e também inventam. Mas esse argumento, em vez de absolver o AMALIA, agrava o desperdício: se os gigantes internacionais já existem, já falham e estão acessíveis a qualquer pessoa, muitos deles gratuitamente, o que comprou o Estado por 5,5 milhões que não existisse já? Não chega dizer que o modelo compreende melhor o português europeu ou que pode correr em servidores locais. Era preciso demonstrar que o dinheiro produziu qualidade, desempenho e utilidade concretas. Essa demonstração nunca apareceu. O que existe é um modelo fraco, sem avaliações independentes conhecidas, sem aplicações práticas visíveis e sem qualquer resultado que justifique a fatura.
É aqui que a palavra "soberania" começa a soar oca. Soberania digital não é colocar uma bandeira sobre tecnologia adaptada e apresentá-la como conquista histórica. Soberania é capacidade real: controlar infraestruturas, proteger dados, formar conhecimento, criar aplicações que resolvam problemas concretos e reduzir dependências externas. Um modelo com quase nada para oferecer não torna Portugal mais soberano. Consegue precisamente o contrário: queima recursos públicos, cria uma ilusão de autonomia e desvia investimento de áreas onde 5,5 milhões fariam diferença real, da saúde à educação, passando pela própria investigação científica.
Nada disto apaga o mérito dos investigadores portugueses envolvidos, que trabalharam com competência dentro das condições que tinham. Mas convém não confundir as coisas: um exercício científico interessante não é um investimento público bem-sucedido. Entre uma plataforma experimental e uma tecnologia que produz valor há uma distância enorme. Essa distância já foi paga pelos contribuintes e, neste caso, sem retorno à vista.
Por isso, as perguntas ao Governo são simples e legítimas. Quais eram os objetivos concretos do projeto? Que metas de desempenho foram fixadas? Que comparações foram feitas com modelos abertos disponíveis de graça? Que aplicações práticas resultaram do investimento? Que avaliações independentes atestam a qualidade do produto final? E, sobretudo, onde foram gastos, euro a euro, os 5,5 milhões?
Estas perguntas não se respondem com discursos sobre inovação e transformação digital. Respondem-se com relatórios públicos, custos discriminados, testes comparativos e resultados verificáveis. O dinheiro dos contribuintes não existe para financiar boas intenções nem vitrinas tecnológicas. Existe para produzir resultados mensuráveis e prestar contas com clareza.
O AMALIA poderá, um dia, evoluir e tornar-se útil. Mas o que temos hoje é um modelo caro, com limitações graves e quase nada para oferecer. Enquanto o Governo não provar o contrário, com dados e não com propaganda, a conclusão mantém-se: Portugal pagou 5,5 milhões de euros por uma bandeira digital. E bandeiras, por mais bonitas que sejam, não valem esse dinheiro.
A afirmação é dura, mas os factos sustentam-na. O AMALIA alucina. Inventa factos, referências, acontecimentos e explicações com a mesma fluência com que acerta. Reproduz enviesamentos, pode gerar conteúdos tóxicos ou discriminatórios e é vulnerável a manipulação através de instruções maliciosas.
A questão central não é se devemos ou não usar IA para fazer ciência. Essa resposta já foi dada pela realidade: a IA entrou definitivamente nos laboratórios. A questão é quem controla essas ferramentas, com que objetivos, sob que regras e com que grau de transparência.
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