Os veteranos deportados para uma terra estranha

Combateram no Iraque e no Afeganistão e julgaram que eram cidadãos americanos, mas descobriram que não. Como civis cometeram crimes e foram deportados. Agora lutam por voltar

Passaram 16 anos desde que Hector Barajas deixou as forças armadas americanas. Ainda assim, o acto de vestir a farda azul e de colocar na cabeça a boina bordeaux dos pára-quedistas continua a ser, para ele, um ritual. Uma sequência metódica de gestos tantas vezes repetidos. Começa por alinhar cuidadosamente a placa com o seu apelido antes de a prender no lado direito da lapela do casaco. Faz o mesmo com as insígnias das forças armadas, que coloca nos ombros. Seguem-se as condecorações obtidas durante os sete anos de serviço activo: quatro no exército, três nos pára-quedistas. Coloca-as do lado esquerdo e passa-lhes pela última vez um pano para garantir que estão brilhantes e sem marcas. Quando tudo está pronto, ajeita a gravata e retira o casaco, que já não esconde os vestígios da passagem do tempo, do cabide pendurado numa reentrância na parede. "Amo os Estados Unidos. Orgulho-me de usar este uniforme", diz à SÁBADO enquanto o veste cuidadosamente.

Cumpre este ritual, pelo menos, uma vez por semana, aos domingos, quando sai do edifício de dois andares onde vive, no Bairro Otay Centenario, na zona Este de Tijuana, e atravessa a cidade para chegar ao muro que separa o México dos Estados Unidos. É aí que, juntamente com outros veteranos, alguns deles vestidos a rigor, tenta chamar a atenção para uma realidade que poucos conhecem: a deportação de ex-militares americanos por crimes cometidos depois de regressarem à vida civil.

Ninguém sabe exactamente quantos são. As estimativas variam entre algumas centenas e alguns milhares. "O sistema de imigração não regista se alguém é ou não um veterano quando procede à deportação", diz à SÁBADO Nathan Fletcher, um antigo marine americano, ex-membro do congresso da Califórnia e actual líder da organização Dishonorably Deported (Desonradamente Deportados, em português). Criada em Setembro de 2016, a organização tem como objectivo impedir os veteranos que não são cidadãos norte-americanos sejam deportados e ajudar aqueles que já o foram a regressar ao país.

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