Decisão assinada por Benjamin Netanyahu foi apenas apoiada pelo Taiwan. Liga Árabe reúne no domingo.
Na sexta-feira (26 de dezembro), Israel tornou-se o primeiro país a reconhecer a auto-proclamada República da Somalilândia, uma região da Somália que declarou independência em 1991. Mas a decisão tem merecido a condenação de praticamente todos os países, do Oriente ao Ocidente, com a exceção de Taiwan, que considera a Somalilândia um “parceiro democrático com ideias semelhantes”. Liga Árabe acusa Israel de “minar a paz”.
Benjamin NetanyahuAP Photo/Ohad Zwigenberg
A decisão depressa gerou reações. A União Europeia, União Africana e China condenaram o reconhecimento, enquanto que a Liga Árabe, composta por 22 países, convocou uma reunião de emergência para o próximo domingo. A Liga Árabe sublinha que este é um “reconhecimento inválido” que tem por objetivo “facilitar planos de deslocamento forçado do povo palestiniano ou de violar os portos do norte da Somália para aí estabelecer bases militares”. O Estado de Israel é ainda acusado de “minar a paz e a segurança internacionais”, em particular a “segurança nacional árabe, o que torna necessário tomar medidas legais, económicas, políticas e diplomáticas contra o mesmo”.
Na verdade, nada na declaração oficial de Israel aborda a questão palestiniana, apresentando-se meramente como uma resposta a um “apelo formal” transmitido pelo presidente da república da Somalilândia - Abdirahman Mohamed Abdullahi - ao primeiro-ministro de Israel. Uma declaração onde se lê que a nova relação diplomática “contribuirá para promover a paz, a estabilidade e a prosperidade no Corno de África, no Médio Oriente e além”. À SÁBADO, o comentador e analista político Germano de Almeida, defende que “não há uma razão clara e inatacável para esta decisão de Israel”, um gesto que considera,” acima de tudo um "precedente perigoso, porque pode abrir uma caixa de Pandora”. Será também um caminho para Israel encontrar aliados (até agora um), numa “forma criativa de alterar posicionamentos na região”, descreve Germano de Almeida, na sequência de “dois anos de crime em Gaza” que contribuíram para o aumento do isolamento de Israel.
Sobre a acusação de que Netanyahu procura um território para forçar o deslocamento de palestinianos, o analista acredita que essa posição “passa pela insinuação de que Israel queira ter na Somalilândia uma alternativa para colocação de palestinianos em África, à revelia de uma autorização da Somália”. E recorda que Netanyahu e Trump “teriam já planeado (não se sabe se mantêm esses planos) uma Gaza ‘limpa’ de palestinianos, mas nunca se soube exatamente para onde eles seriam deslocados”.
"Estamos em plena derrocada do sistema internacional"
Apesar de considerar que, à margem do conflito israelo-palestiniano, a questão da soberania da Somalilândia poderá merecer reflexão, Germano de Almeida diz que “o contexto histórico e geográfico dos dois casos é muito diferente” e que “esta junção improvável explicar-se-á por interesses conjunturais (e nada assumidos) de Netanyahu”. Ao mesmo tempo, destaca o posicionamento, também quase em isolamento dos Estados Unidos da América (EUA). “É muito esclarecedor que, ao contrário da China, da Liga Árabe e da UE, os EUA de Trump não tenham rejeitado a possibilidade e se mostram abertos a estudar a proposta israelita”, alertando ainda para o “fator da navegabilidade do Mar Vermelho, tema que interessa talvez ainda mais aos EUA que a Israel”. No outro lado do Golfo de Áden fica o Iémen, a partir de onde os rebeldes Houtis alertaram que a presença israelita na Somalilândia será considerada um “alvo militar”. Ou seja, outro fator para o reconhecimento da Somalilândia passará por uma possível aproximação geográfica das forças militares israelitas, que ficam assim mais próximas dos rebeldes iemenitas.
E num mundo em conflito, Germano de Almeida acredita que “esta questão inesperada agrava o risco de que o cessar-fogo em Gaza não tenha grande futuro”, uma vez que “o risco do regresso em força da guerra no Médio Oriente é real”, considerando-a um “retrocesso” nas negociações de paz do “plano Trump”, que numa próxima fase passariam pelo “contributo dos países árabes da região”. Outro fator de instabilidade é este reconhecimento da Somalilândia avançar “à margem da ONU”, demonstrando, para Germano de Almeida, “como estamos em plena derrocada do sistema internacional, baseado em regras”. “Parece que passou mesmo a valer quase só os interesses dos países que têm força”, conclui.
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