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Tenho a esperança de que um desses efeitos da esmagadora vitória do Presidente Eleito seja o de podermos voltar a debater, de uma forma racional e com razoabilidade, as soluções técnicas e políticas para os graves problemas do País que já existiam antes destas intempéries, mas que foram seriamente agravados com a eclosão das mesmas.
A passada noite de 8 para 9 de
fevereiro tinha tudo para ser um tempo de alegria.
Moderada, claro, porque a vida já
há muito me ensinou que é melhor nunca ter expectativas muito elevadas. E, para
além disso, também não podiam ser esquecidas as tragédias causadas pelas
intempéries que haviam assolado o país (e que se continuaram a abater sobre nós
– uns mais do que outros, reconheça-se) e cujos efeitos devastadores ainda irão
persistir por mais algum tempo. Muito tempo, mesmo.
Aliás, infelizmente, para muita
gente (demasiada gente) a vida não voltará mais a ser a mesma.
Todavia, havia mesmo razões para
algum contentamento.
De facto, apesar de todas as
agruras, com excepção de muito poucas freguesias, os portugueses e as
portuguesas com capacidade eleitoral acorreram em grande número às mesas de
voto e mais de 2/3 (dois terços) desses eleitores e eleitoras repudiaram clara e
esmagadoramente o projecto político do asqueroso e repugnante racista e
xenófobo, que, vomitando ódio e intolerância sempre que abre a boca, se atreveu
a afirmar que Portugal precisava de três Salazares.
E António José Seguro tornou-se o
político português eleito com o maior número de votos.
E essa votação esmagadora a favor
da Decência, da Democracia, do Estado de Direito, dos Direitos Humanos
Universais e da preservação do regime político estabelecido na Constituição da
República de 1976, por muito que Luís Montenegro não o queira aceitar – e isso
ficou patente no desastrado discurso que proferiu nessa noite -, vai surtir
efeitos.
Tenho a esperança de que um desses
efeitos da esmagadora vitória do Presidente Eleito seja o de podermos voltar a
debater, de uma forma racional e com razoabilidade, as soluções técnicas e políticas
para os graves problemas do País que já existiam antes destas intempéries, mas
que foram seriamente agravados com a eclosão das mesmas.
O que é vital que aconteça porque
estas tempestades irão afectar-nos com uma cada vez maior frequência/regularidade
e, muito provavelmente, com uma crescente intensidade destruidora.
Não há, pois, mais tempo para a
incompetência e para a demagogia dos aldrabões e fala-barato como André Ventura
e outros como ele (e que não são apenas os militantes do Chega).
E penso que isso se tornou
perfeitamente perceptível para essa grande maioria dos portugueses e
portuguesas. Daí que tantos e tantas tenham acorrido a votar apesar das
condições atmosféricas adversas, e que tantos e tantas tenham votado em António
José Seguro.
Na verdade, estou seriamente
convicto que, ao sustentar, com o seu habitual atrevimento alarve, que o país
precisava de três Salazares (assumindo-se, portanto, como defensor desse
ditador fascista e mostrando que a miséria do Estado Novo é o modelo de sociedade
que deseja para Portugal) e ao autoproclamar-se como o novo líder de toda a
Direita portuguesa, André Ventura cometeu um erro crasso. Ou dois.
Efectivamente, por um lado, porque,
consabidamente, ele não é, de todo, o verdadeiro líder de toda a Direita
nacional, e, por outro, porque abandonou o conforto fácil de quem só critica e anunciou
qual é o modelo de organização política e social que deseja ver instalado no
país.
E, por muito zangados com o regime
democrático que possam estar os portugueses e as portuguesas - que estão mesmo,
tendo demasiadas boas e justificadas razões para o estar -, é inegável que a
vida para as pessoas normais é incomparavelmente melhor com a actual Democracia
constitucional do que alguma vez o foi durante o tempo do moral e materialmente
corrupto Estado Novo.
Mesmo com a paulatina e sistemática
destruição do Estado Social que a generalidade da população tem vindo a sofrer
nas duas últimas décadas.
Já agora, quero clarificar que,
pese embora outros e outras estejam em bem pior situação do que a minha, eu sou
um desses zangados.
Lamentavelmente, perto de um terço
dos portugueses e portuguesas com capacidade eleitoral não são democratas.
Não digo que aqueles e aquelas que
votaram em André Ventura são fascistas – esses serão talvez uns 10% desses e
dessas votantes (porque sempre houve fascistas em Portugal, apenas não tinham a
coragem de o afirmar publicamente como agora fazem) -, mas, ao votar num
candidato que só sabe espalhar o ódio, fomentar o racismo, a xenofobia e a
intolerância, e que tão abertamente defende a violência e propõe como solução
para o país voltarmos ao tempo do Estado Novo, essas pessoas não são de todo
defensores da Democracia e do Estado de Direito.
E não podem queixar-se quando assim
são qualificados, isto é, de totalitários e anti-democratas.
Vale-lhes a circunstância de, ao
contrário dessas pessoas, a maioria da população portuguesa não ser adepta
daquele ideário de ódio e intolerância que os e as votantes de André Ventura
aceitam de tão bom grado.
Com António José Seguro na
Presidência da República é expectável antecipar que a ideia de que as pessoas
estão sempre em primeiro lugar (e não os números) voltará a ter primazia na
acção política daqueles e daquelas a quem foi delegada a condução do destino
nacional.
Contudo e pedindo indulgência para
uma nota pessoal, nesse dia 8 de fevereiro, essa alegria não eufórica foi
perturbada pela notícia triste e para mim totalmente inesperada, do falecimento
de Noémia Simões de Ariztia, uma das dirigentes da Associação Movimento Cívico
Não Apaguem a Memória (NAM).
Lutadora anti-fascista e activista
do movimento estudantil anti-salazarista na década de 60 do século XX, porque,
como ela costumava dizer, considerava intolerável e inaceitável que o regime se
atrevesse a querer estabelecer a maneira como ela tinha de se comportar, e o
que podia (e o que não podia) pensar, dizer, ler e fazer, e até a forma como se
podia (e não podia) vestir, foi perseguida pela PIDE e, como tantos outros e
tantas outras da sua geração, acabou por se exilar, só regressando a Portugal
depois do 25 de Abril.
Com naturalidade, tornou-se membro
do NAM e era, à data do seu falecimento membro da Direcção dessa Associação
Cívica que tem por objectivo preservar a memória histórica da luta pela
Liberdade, pela Democracia e pelas liberdades individuais.
E, quem tiver curiosidade, poderá
encontrar no Google e em várias redes sociais uma descrição mais detalhada da
vida desta grande mulher, que na antiga Jugoslávia, onde também estudou,
conheceu o amor da sua vida, o pintor chileno Pancho Ariztía, com quem se casou,
e que em Paris foi secretária de Pablo Neruda.
Repito, há muito de pessoal – de
emoção pessoal - na menção deste óbito de um ser humano tão terno, alegre e
tolerante como era a minha Amiga Noémia.
Mas há também a necessidade de não
deixar desaparecer o que foi a vida e a história de pessoas como ela.
Necessidade imperiosa face aos
horríveis tempos – tanto a nível nacional como em termos internacionais – que
estamos a viver.
Porém, parafraseando a letra de uma
das “Canções Heróicas” de Fernando Lopes Graça, o que vale para quem a
conheceu, Noémia Simões de Ariztia continuará ao nosso lado na luta pela
Liberdade, pela Democracia e pelas liberdades individuais, pelo Estado de
Direito e pelos Direitos Humanos Universais.
Tenho a esperança de que um desses efeitos da esmagadora vitória do Presidente Eleito seja o de podermos voltar a debater, de uma forma racional e com razoabilidade, as soluções técnicas e políticas para os graves problemas do País que já existiam antes destas intempéries, mas que foram seriamente agravados com a eclosão das mesmas.
Como nunca aconteceu desde 25 de abril de 1974, o futuro de todos e todas nós está muito dependente da participação dos eleitores e das eleitoras neste importantíssimo acto cívico.
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