Filho do aiatola para liderar o Irão? É uma escolha que pode ter “impacto no humor de Trump"
Especialistas ouvidos pela SÁBADO garantem que o objetivo por detrás da escolha de Mojtaba para líder supremo do Irão é dar "continuidade ao regime”. Filho do aiatola, que morreu nos ataques dos EUA, era um dos candidatos com menos experiência.
Mojtaba Khamenei foi o escolhido para liderar o Irão e, assim, suceder ao pai – o aiatola Ali Khamenei que morreu durante os ataques dos EUA e de Israel. A nomeação tem deixado, contudo, algumas questões, isto porque Mojtaba não possui qualquer tipo de experiência política. Há até quem aponte que esta poderá ser uma tentativa de "provocar" Donald Trump. “Ao nível dos EUA, isto é visto como uma provocação porque é a afirmação da linha mais dura” do Irão, defende à SÁBADO José Filipe Pinto, especialista em relações internacionais.
O filho de Ali Khamenei já tinha sido sancionado pelos norte-americanos, em 2019, sustentando este episódio a versão de José Filipe Pinto. Além disso, perdeu a sua família durante os ataques contra o Irão. Agora eleito, era apontado como um dos candidato menos experientes a suceder a Ali Khamenei. “Mojtaba não tem experiência a nível político nem é uma figura importante ao nível religioso. É apenas um clérigo com estudos avançados que está autorizado a interpretar leis islâmicas, mas não é um aiatola”, explica José Filipe Pinto.
Mojtaba Khamenei estudou no seminário de Qom, o principal centro de estudos religiosos xiitas do Irão, em 1990, e começou a lecionar nos inícios do ano 2000, criando fortes ligações com as lideranças políticas e religiosas do país. Antes disso, em 1987, alistou-se na Guarda Revolucionária Islâmica. “Não é por acaso que a Guarda Revolucionária foi célere a manifestar lealdade a Mojtaba Khamenei. Ele entrou para a Guarda Revolucionária em 1987 e participou na guerra entre o Irão e o Iraque”, recordou José Filipe Pinto.
Mas para Diana Soller, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova, esta escolha em nada tem a ver com Trump, mas sim com a "sobrevivência do regime" - que o presidente norte-americano disse querer destruir. “Os peritos escolheram quem achavam que dava mais garantias de sobrevivência ao regime”, sustentou em declarações à SÁBADO.
“Não quer dizer que esta escolha não tenha indiretamente impacto no humor de Trump, mas não é esse o objetivo. Aliás, o filho do Khamenei já estava na short list [pequena lista] de sucessores antes do pai morrer", recorda Diana Soller. "Acho que há aqui um significado mais vasto relacionado com a ideia de linhagem de aiatolas. E o filho do aiatola é conhecido por ser bastante seguidor dos princípios do pai e por querer dar continuidade ao regime.”
Ali Khamenei já havia referido, contudo, numa entrevista, que não queria que o filho seguisse este caminho, mas sobre isso, Diana Soller contrapõe: “Ali Khamenei está morto. Foi assassinado. Por isso, não tem uma palavra a dizer sobre isto.” Além disso, a sucessão de pai para filho não é bem-vista no sistema clerical xiita. “Ele está a repetir o procedimento do pai, quando foi nomeado em 1989, porque Ali Khamenei também não era um aiatola e como não o era teve o cuidado de alterar a lei”, explica José Filipe Pinto.
Mojtaba foi agora nomeado com a promessa de dar continuidade à postura de linha-dura do pai. “Com o agora líder supremo o que vai acontecer é um endurecer da linha-dura. A diferença é que Mojtaba não pode ter aparição pública, caso contrário será assassinado. E agora vamos ver a Mossad e a CIA a estudar os seus movimentos na tentativa de o eliminar”, sustenta Filipe Pinto.
Israel já haviam prometido que iria "perseguir todos os sucessores [de Ali Khamenei] e qualquer pessoa envolvida na escolha de um novo líder". Enquanto isso, os EUA declararam que o futuro líder supremo "não durará muito tempo". "Terá de obter a nossa aprovação", disse Donald Trump numa entrevista à ABC News.
Mojtaba Khamenei foi eleito pela Assembleia dos Peritos, o órgão composto por 88 membros que tem como missão designar o líder máximo do país.
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