De infeções a cancros: investigação mostra que centros de detenção do ICE negligenciam ajuda médica
Falta medicação, compressas, gaze e até pensos higiénicos.
Centenas de pessoas retidas nos centros de detenção da polícia de imigração norte-americana (ICE) relatam não estar a receber ajuda médica. Imigrantes com problemas de hipertensão, diabetes, depressão epilepsia, Parkinson ou SIDA ficam sem resposta durante semanas a fio, isto sem falar de infeções que não são convenientemente debeladas ou cancros que ficam sem tratamentos. Segundo a Associated Press, há casos de desmaios e até convulsões.
Estes centros estão sobrecarregados desde que Donald Trump decidiu aumentar o número de deportações - com detenções em massa em residências particulares, no trânsito e até em hospitais - e uma investigação da KFF Health News e da Associated Press revelou muitos casos de negligência. O Departamento de Segurança Interna relatou que 51 pessoas morreram sob custódia do ICE desde o início do segundo mandato de Trump, com um aumento nunca antes visto no número de suicídios.
Centenas de detidos em pelo menos 33 estados alegam, em ações judiciais federais, que os centros de detenção de imigrantes não estão a fornecer assistência médica adequada e um deles é Vardan Gukasian, dissidente político e ex-paramédico que passou anos preso na Arménia e foi detido no Nevada durante 13 meses. "Nunca vi tamanho desleixo ou tamanha negligência médica."
Um homem, pai de seis filhos, detido na Geórgia, sofreu uma infeção grave. "Não conseguia entender por que me trataram com tanta dureza.” Sofreu um ferimento algemado e sob custódia, quando o veículo que o transportava para uma penitenciária em Atlanta deu um solavanco, arremessando-o para fora do assento contra um apoio de braço de metal. O ferimento infetou com a bactéria E. Coli porque teve que dormir num chão de cimento sujo, perto das sanitas.
Alguns detidos ou os seus advogados relatam que faltam cuidados básicos: gaze para proteger um ferimento aberto num pé, cuidados pré-natais para uma gravidez de alto risco, uma almofada para aliviar a dor de dormir com cancro no estômago em estágio avançado, ou pensos higiénicos para um sangramento pós-parto.
Por vezes os imigrantes são transferidos sem aviso prévio, interrompendo tratamentos. E defensores de pessoas com deficiência garantem que, até mesmo deficiências óbvias, como cegueira, são ignoradas.
Um homem que perdeu um olho e tinha um glaucoma grave no outro, precisava de aplicar colírio duas vezes por dia para manter a visão que lhe restava. Mas, segundo explicou, muitos dias o medicamento simplesmente não aparecia. "Agora, só consigo ver um pouco à minha frente. Muitas vezes parece que estou a ver através de uma gaze", escreveu o homem numa declaração judicial.
Entre os muitos casos relatados pela Associated Press, está o de José-Antonio Segismundo, que por ter sido detido pelo ICE durante 7 meses, não pôde consultar um oncologista para tratar o cancro no estômago. A mulher, Maria José Gonzalez, assegura que ele não recebeu qualquer tratamento, apesar de ela ter enviado todos os registos médicos e explicado a sua condição clínica aos funcionários. Quando a dor de estômago surgia, muitas vezes repentina e intensa, davam-lhe paracetamol. Segismundo, de 48 anos, acabou por ser deportado para o México, país que deixou há quase 30 anos...