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A Bíblia, os livros, a política e os resultados do Barcelona: filho conta como Maduro tem sobrevivido na prisão

Isabel Dantas 03 de maio de 2026 às 10:50

Detido em Nova Iorque desde janeiro, ex-presidente da Venezuela desenvolveu uma obsessão pelo Papa e cita frequentemente excertos da Bíblia. Nos telefonemas que faz para casa, pergunta pela família, pela política venezuelana e fala de futebol.

Nicolás Ernesto Maduro Guerra, filho de Nicolás Maduro, contou numa entrevista ao El Pais alguns pormenores da noite em que as tropas norte-americanas detiveram o seu pai e a mulher, Cilia Flores, em Caracas. Nicolasito, como é conhecido o deputado de 35 anos no seio familiar, recebeu uma mensagem de voz do presidente naquela noite do dia 3 de janeiro. "Nico, eles estão a bombardear. Deixa a pátria, continua a lutar, vamos em frente", recorda, citando as palavras do pai, para depois acrescentar: "Ele achou que ia morrer".

Maduro Guerra, filho de Nicolás Maduro AP

Nicolás Maduro acabou por ser levado para os Estados Unidos, onde permanece detido numa prisão em Brooklyn, juntamente com a mulher, acusado de narcoterrorismo. Maduro Guerra lembra o que lhe contaram sobre a noite da detenção: o pai foi agarrado quando tentava entrar num armário "por instinto de sobrevivência", fraturou um joelho, e que Cilia Flores desmaiou depois de bater com cabeça num móvel. "Graças a Deus descobrimos depois que Cilia estava bem, porque a poça de sangue era horrível."

Depois de receber aquela mensagem perturbadora, Nicolasito pensou que o pai tinha morrido. Entre explosões e caças a sobrevoar a cidade, tentou ligar para o pai, sem sucesso, pelo que telefonou aos irmãos Delcy Rodríguez (atual presidente interina do país) e Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional), que chegaram a admitir que Maduro estava morto.  "Eles disseram aos mediadores norte-americanos que, se o presidente tivesse sido morto, não falariam com assassinos", conta o filho de Maduro que à mulher reconheceu: "Acho que mataram o meu pai". 

Um mês e meio depois, Maduro Guerra recebeu um telefonema do pai, a partir dos Estados Unidos, e o deputado recorda que ficou sem palavras, que "chorou" ao ouvir a sua voz. A partir daquele dia passou a receber chamadas relativamente frequentes, uma vez que Maduro tem direito a 510 minutos por mês para conversar com o mundo exterior.

 Os primeiros meses foram passados em confinamento solitário, numa cama estreita. Mas o governo de Delcy Rodríguez negociou melhores condições com os Estados Unidos e, segundo o filho, durante a Semana Santa Maduro começou conviver com outros presos e até a ver televisão com eles. 

Maduro desenvolveu uma obsessão pelo Papa e pela Bíblia. “Memorizou-a. Cita uns versículos malucos...”, refere o filho, que grava todas as conversas. “Ele nunca foi assim, mas agora ao telefone começa a dizer ‘vocês têm de ouvir Mateus 6:33. E 3 Coríntios. E o Salmo 108’." 

Mas o ex-presidente tem lido outros livros. Pediu-os ao filho, que os enviou para Nova Iorque. Biografias, livros sobre a história dos Estados Unidos, sobre Simon Bolívar e metafísica. Para Cilia Flores, que é advogada, Maduro Guerra enviou o Código Penal de Nova Iorque. 

Maduro também pergunta ao filho sobre a família, às vezes sobre política da Venezuela, comida e até futebol. No dia 14 de abril, quando o Barcelona foi eliminado da Liga dos Campeões, estava furioso. "Bolas, que fiasco", lamentou.

Nicolasito acredita que o pai está bem, apesar da detenção. “Ele é dedicado ao país e à política. Acredito que estava preparado para isto. Sei que sente que é uma vitória estar vivo", refere, acreditando que um dia Maduro vai regressar à Venezuela: "Temos fé de que possa voltar. O juiz parece ser um bom homem, vamos lutar na justiça, mas o regresso terá de fazer parte de um acordo político."

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