Tradutora citada por Nolan arrasa "A Odisseia": "Teria vergonha de ter escrito este argumento"
Emily Wilson, classicista cuja tradução de Homero ajudou o realizador a imaginar Ulisses como um “homem complicado”, acusa o filme de trocar a densidade do poema pelo espetáculo.
Matt Damon é Ulisses no épico de Christopher Nolan, criticado pela tradutora Emily WilsonD.R.
Christopher Nolan encontrou numa tradução de Emily Wilson a frase que lhe abriria o caminho para A Odisseia: “Fala-me de um homem complicado”. O realizador citou a primeira linha da versão publicada pela classicista em 2017 ao explicar o que o atraía em Ulisses; o engenho, a astúcia e a capacidade de se reinventar de um herói que não era apenas um guerreiro.
Depois de ver o filme, Emily Wilson, a referida tradutora, concluiu que pouca dessa complexidade chegou ao ecrã. "Teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste argumento", escreveu, na crítica An Uncomplicated Man [Um Homem Descomplicado, em português], publicada pela revista literária London Review of Books.
O alvo é uma das maiores produções da carreira de Christopher Nolan, um épico com orçamento de 220 milhões de euros - em sala já rendeu mais de 560 milhões de euros em receitas de bilheteira -, rodado integralmente com câmaras IMAX, que chegou às salas portuguesas a 16 de julho. Matt Damon veste o papel de Ulisses, Anne Hathaway de Penélope e Tom Holland de Telémaco, numa produção que inclui ainda Zendaya, Charlize Theron, Lupita Nyong’o e Robert Pattinson.
O filme tem sido bem recebido pela crítica e tornou-se um sucesso de bilheteira, mas isso não impediu Wilson de o descrever como mais um exemplo da habitual combinação de "grandiosidade e superficialidade" do realizador. A objeção da académica não é, no entanto, a falta de fidelidade literal, aponta também a Associated Press.
Wilson sublinha que uma adaptação não deve obedecer ao original com o rigor exigido a uma tradução e recorda que algumas das melhores releituras literárias de Homero - Ulisses, de James Joyce e Circe, de Madeline Miller - transformaram radicalmente o poema. O problema, argumenta, é que Nolan "enche cada segundo de acontecimentos, luz e ruído", mas deixa pouco espaço para uma dimensão verdadeiramente humana. Na sua leitura, o filme nada tem de convincente a dizer sobre o tempo, a memória, a guerra ou o efeito do regresso de um combatente na família, nos aliados e nas vítimas que ficaram pelo caminho.
É sobretudo o Ulisses de Matt Damon que desaponta Wilson. O título da crítica, Um Homem Descomplicado, devolve a Nolan, com ironia, a frase que o inspirou. Para Homero, Ulisses sobrevive porque mente, representa, manipula e muda de identidade; no filme, considera a tradutora, torna-se um herói de ação "dominado pela ansiedade e pela culpa, mas privado da astúcia e das contradições do original".
A violência também é apresentada quase sempre do ponto de vista de quem a pratica; os troianos são desumanizados, as mortes aproximam-se da lógica de um videojogo e o sofrimento das vítimas raramente tem peso, aponta Wilson na crítica de 4220 palavras.
Em declarações ao jornal britânico Sunday Times, Wilson disse que o reencontro de Ulisses com Penélope e Telémaco, depois de 20 anos de ausência, "não lhe provocou a emoção que encontra no poema". A razão, afirmou, é simples: ao contrário de Homero, o filme "não está muito bem escrito", nem Nolan dá ao espectador motivos suficientes para desejar que aquele homem regresse à mulher.
A académica elogia o desempenho de Hathaway, mas considera a Penélope do argumento muito menos profunda do que a figura literária homérica. Athena, interpretada por Zendaya, é reduzida à consciência de Ulisses; Calipso perde a fúria e o poder divinos; e Helena, apesar de ser representada por Lupita Nyong’o, dispõe de pouco espaço para revelar a sua ambiguidade. "Para os padrões de Nolan, foi ótimo para as personagens femininas. Para os padrões de Homero, foi um pouco dececionante", lamentou.
Mas quem é a mulher cuja opinião passou a pesar sobre o épico de Nolan? Emily Wilson, de 54 anos, é professora e dirige o Departamento de Estudos Clássicos da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Em 2017, tornou-se a primeira mulher a publicar uma tradução integral de A Odisseia para inglês.
Trabalhou durante dez anos numa versão em pentâmetro iâmbico [um ritmo de poesia], com as mesmas 12.110 linhas do poema, procurando reproduzir o ritmo e a rapidez da narrativa sem recorrer à solenidade artificial de muitas traduções anteriores. Em 2023, publicou também uma tradução de A Ilíada.