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De Homero ao X: a longa viagem das polémicas de 'A Odisseia'

Não é a primeira adaptação do poema épico de Homero, mas é a mais vistosa. E entre críticas e percalços, algumas polémicas têm sido também uma odisseia.

A Odisseia está no centro da conversa cultural
A Odisseia está no centro da conversa cultural Universal Pictures

Num mundo de redes sociais, a contestação tem encontrado eco. Mas há mais tropeções à mistura em torno do mais recente título de Christopher Nolan, realizador e argumentista de A Odisseia, o filme que tem marcado este ano, dentro e fora das salas de cinema. As críticas começaram bem antes da estreia, grande parte relativas à escolha do elenco e da sua veracidade histórica, embora estejamos perante uma obra baseada em mitos. Sobre o assunto falámos , com a ajuda do historiador Nuno Simões Rodrigues, mas agora fazemos uma compilação de alguns episódios desta odisseia de polémicas.

A escolha do elenco

A Helena de Troia interpretada por uma atriz negra? O Elliot Page como Aquiles, com aqueles bracinhos? As especulações e críticas sobre a escolha do elenco para A Odisseia foram os primeiros sinais de alerta de que a adaptação de Nolan iria dar que falar.

A escolha de Lupita Nyong'o para o papel de Helena de Troia foi uma das mais contestadas, com muitos heróis do teclado a comparar a vencedora de um Óscar de Atriz Secundária (por 12 Anos Escravo) com Diane Kruger, a Helena do filme Tróia (2004), de Wolfgang Petersen. Talvez porque a imaginassem muito mais próxima da imagem popularizada por Hollywood nas últimas décadas.

O caso de Elliot Page acaba por ser mais engraçado. Durante meses, achava-se que o ator iria interpretar Aquiles, mais uma vez sendo comparado à escolha do elenco de Tróia, onde foi interpretado por Brad Pitt, basicamente um deus na Terra, especialmente naquela altura. Bom, Elliot Page vestiu, afinal, a pele de Sinon, guerreiro grego que engana os troianos para que eles deixem entrar o Cavalo de Troia dentro da cidade. Uma cena que, na verdade, faz parte da obra Eneida, de Virgílio. E Aquiles nem sequer consta da narrativa de Nolan.

O calote da reparação de um navio

A produção não olhou a despesas para oferecer realismo à ilusão. Mas, alegadamente, ter-se-á esquecido de umas faturas de reparação de uma das embarcações usadas no filme. A associação sueca Vikingaleden de não pagar cerca de cinco mil euros de reparações do navio Glad av Gillberga, réplica de um dracar viking do século XI, construída em 1998. A Universal defendeu-se em comunicado, dizendo que a situação se devia a um mal-entendido e que “todas as faturas relacionadas com o Glad av Gillberga foram pagas na íntegra, incluindo as reparações”. Ainda não temos mais novidades sobre este tema.

A partilha do filme no X

Esta é especialmente irónica, porque A Odisseia é um daqueles filmes que se torna quase obrigatório ver no cinema. Especialmente numa sala IMAX, porque Nolan filmou tudo com câmaras IMAX 70mm, algo inédito para numa longa-metragem de ficção. Ou seja, o filme foi concebido para aproveitar ao máximo o grande ecrã, numa tela maior e com mais definição, além de ter um sistema de som mais potente, o que se traduz experiência mais imersiva, como agora se diz. Só que o filme foi parar, vejam só, a uma rede social. Ao X, mais precisamente, onde tem recebido mais críticas da comunidade que se identifica como “anti-woke” (a começar pelo próprio dono da firma).

Segundo as contas, , antes de ser eliminada, a partilha teve três milhões de impressões, o que apenas significa que foi visualizada esse número de vezes e não que esse total tenha visto o filme todo. Por aqui achamos que esta pode ter sido a forma mais fatela de pirataria da história da pirataria. Quem quer ver isto numa rede social num ecrã minúsculo? Nem dá para ver bem os músculos do Aquiles, nem nada. Ah, espera.

A tradutora enraivecida

"Teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste argumento". São duras as palavras de Emily Wilson, classicista e autora da primeira tradução da Odisseia para inglês feita por uma mulher. Ironicamente, foi a sua tradução que a encontrar o caminho para Ulisses. No entanto, Wilson parece ter detestado a passagem da história para cinema. "Teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste argumento", escreveu a tradutora numa crítica publicada pela revista London Review of Books. Apesar de considerar que uma adaptação não é obrigada a seguir o original com rigor, critica a longa-metragem por encher "cada segundo de acontecimentos, luz e ruído", deixando à margem a dimensão humana da história. Em declarações ao jornal britânico Sunday Times, chegou mesmo a dizer que o filme "não está muito bem escrito".

As críticas de Wilson não passaram sem resposta. A premiada escritora norte-americana Joyce Carol Oates (autora de Blonde) saiu em defesa de Nolan e acusou a tradutora de usar uma linguagem excessivamente agressiva. Numa publicação na rede social X, Oates afirmou que Wilson, que "beneficiou enormemente" da adaptação de Nolan, preferiu recorrer a um discurso semelhante ao dos apoiantes do movimento MAGA quando atacam ideias de que discordam, em vez de debater diferentes interpretações de Homero de forma mais colegial.

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