Tomaram antidepressivos, passaram fome, um deles pensou suicidar-se

Tiago Carrasco 14 de setembro de 2017

Hugo acordava com ataques de pânico, Sofia conta 40 projectos falhados, Miha só não saltou da varanda para não deixar dívidas à mãe


No dia do funeral do seu avô, Hugo Castro passava por um momento crítico: tinha dívidas, tomava calmantes e antidepressivos, acordava com ataques de pânico – e não tinha mais de três euros por dia para comer, que gastava ao pequeno-almoço, ao almoço ou ao jantar em três hambúrgueres do McDonald's. "Era a minha própria sobrevivência que já estava em causa", afirma à
SÁBADO o empreendedor, de 39 anos. Tudo começou em 2014, quando decidiu levar avante uma ideia de negócio que o perseguia: uma aplicação de eventos completa e intuitiva que, além de listar todos os concertos, espectáculos e actividades pelo mundo fora, permitisse a compra imediata dos bilhetes. "Estava irritado porque, desde que o Facebook alterara os algoritmos, os eventos partilhados pelos meus amigos tinham deixado de estar visíveis e eu perdi muitas coisas que queria ver. As outras apps eram muito incompletas. Então decidi criar a minha", conta Hugo. Nasceu o Bora.

Hugo começou por reunir uma equipa de amigos, pedir um empréstimo de 8.000 euros e tentar criar uma versão beta. Mas o programador não cumpriu os prazos e, um ano depois, já a equipa se desmembrava e o líder descontava dinheiro para pagar juros. Uma pessoa comum talvez desistisse aqui. Mas não um empreendedor. Muito menos um dos obcecados, como Hugo, um técnico de som transformado em especialista informático por auto-recreação. "Continuava com fé no projecto, não só porque confiava no seu valor, mas também porque tinha reacções muito boas nas reuniões que fazia com bandas, salas de espectáculos, empresas e autarquias", conta.

Perante a expectativa de investimento, deixou o emprego – um projecto para a Apple – para se dedicar a 100% ao Bora. Com escritório na incubadora do Tagus Park, passava as noites num sofá de um metro e 20 por não ter dinheiro para reparar o carro e ir dormir a casa. Acordava de madrugada com picos de ansiedade e punha-se a trabalhar. Mas os problemas sucediam­-se, as discussões com a família, amigos e namorada também. O psicólogo diagnosticou-lhe uma depressão. Foi quando, há cerca de um ano e meio, perdeu o avô: "Ele era um grande empreendedor, tinha sido uma fonte de inspiração e eu queria ter-lhe mostrado que conseguia conduzir a minha ideia ao sucesso", conta Hugo. "Naquele dia, peguei num dos pins do Bora que tinha mandado fazer e meti-o dentro do caixão. Era como se estivesse a admitir o meu fracasso e a enterrar a empresa, ao mesmo tempo que lhe dizia para levar o Bora com ele, para que não se esquecesse de que eu ia continuar a lutar pelo meu sonho."

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