O refugiado que chegou em Executiva

O refugiado que chegou em Executiva
Ana Taborda 15 de junho de 2017

Fez o curso de empreendedorismo numa tenda e ajudou sírios a trabalhar, fosse a fazer queijo ou no Booking

Compra um fato bom, com estilo, não arranjes um barato, disse-lhe o contrabandista. E ele assim fez. "Também comprei sapatos novos, uma pasta, tive de ir a um centro comercial [tratar disso], a ideia era parecer um homem de negócios", conta à SÁBADO Jay Asad. Para dar (ainda) mais credibilidade ao disfarce, deixou a Grécia num voo em classe executiva; quando aterrou em Amesterdão continuou a andar, sempre; telefonou ao irmão assim que saiu do aeroporto e juntou-se a ele numa praça da cidade; depois procurou um hotel para passar a noite. A fuga deste refugiado sírio nunca foi interrompida. "Estava habituado a aeroportos e isso ajudou muito, a minha linguagem corporal não pareceu estranha. Sei onde me sentar, como falar." Fato, sapatos, pasta – o preço estava incluído no custo total da viagem que o levou até à Holanda, onde vive desde 2015.

A ideia de viajar em executiva, como o homem de negócios que na verdade sempre tinha sido, não foi a única que ouviu, mas foi a que mais o convenceu. Para sair de Esmirna, na Turquia, falou "com uns 14 contrabandistas", em Atenas, onde apanhou o avião, com outros oito. "Há tantos… E são todos uns bandidos. Tens de confiar no teu instinto". Mas o instinto de Jihad Asad, ou Jay, como todos o tratam, nem sempre esteve certo, admite. Quando a SÁBADO falou com ele pela primeira vez, em Abril do ano passado, estava a preparar o primeiro fundo de investimento para negócios criados por refugiados, o Amalna Ventures, que ainda tem site (em construção) e se previa que arrancasse com um milhão de euros – chegou a organizar um encontro que juntou um grupo de investidores e quatro empreendedores que lhes apresentaram as suas ideias de negócio. "O resultado mostrou que não estavam prontos. Viviam no passado, numa economia em desenvolvimento que precisava desesperadamente de tudo, e a Holanda é uma economia saturada, que precisa de produtos e serviços inovadores, com um grande potencial de crescimento ou com forte impacto social."

Desistiu do fundo, mas não dos negócios. Há dois meses, lançou a RefuJay Foundation e uma incubadora para startups na área da comida: está a trabalhar com cinco refugiados e dois projectos, a empresa de catering Startup Kitchen e a Baladi Cheese & Dairy (queijo e lacticínios), que deve começar a produzir no próximo mês. "A comida é uma óptima forma de introduzir uma nova cultura", diz à SÁBADO o empreendedor que ao longo da sua vida criou e liderou 16 empresas em áreas tão diferentes como hotelaria, construção, desporto, transportes, comércio, comida e decoração. E que quando chegou a Amesterdão se juntou à Refugee Company, uma rede que liga refugiados à procura de trabalho a mais de 40 empresas do país – é uma das pessoas que a lidera, coordena gente que cozinha, fotografa, faz T-shirts e instalações de arte, design e montagem de eventos.

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