Os brasileiros ricos que procuram Portugal para viver

Os brasileiros ricos que procuram Portugal para viver
Raquel Lito 23 de setembro de 2017

A paisagem, as praias e o clima lembram-lhes a dolce vita do Rio de Janeiro. Cascais é o seu epicentro: uns recomeçam na Quinta da Marinha, outros no Estoril, ou no bairro do Rosário. Porto e Algarve também são opções


Até à cancela do condomínio faz-se um caminho por estradas privadas com moradias de luxo e um campo de golfe ao fundo. Sem recorrer ao GPS é um quebra-cabeças encontrar um dos refúgios das novas elites de Cascais. Está inserido na Quinta da Marinha, em coabitação pacífica com os ilustres de sempre (Pinto Balsemão, Freitas do Amaral, Álvaro Barreto ou o clã Champalimaud), mas poucos sabem como lá chegar. Nem os vizinhos da velha guarda, da mesma condição e que praticam jogging a meio de uma tarde de segunda-feira, conseguem dar indicações exactas. Porque o secretismo varia na razão directa do preço da renda: 5.000 euros por mês.
A cancela automática sobe. Só há nove vivendas rústicas, ajardinadas, com telhados ao nível das copas dos pinheiros mansos. Entre os moradores turcos, russos, portugueses e belgas há uns imigrantes recém-chegados do Brasil (sem incluir a cantora Fafá de Belém, que costuma passar férias no condomínio). São os cariocas Leandro e Fernanda Matta. Recebem a SÁBADO com uma mesa posta na sala. Vão petiscando bolinhos secos, tostas, queijo e vinho tinto enquanto os filhos – João, de 16 anos, e Vinicius, de 7 – brincam à volta da piscina. Nunca viveram num apartamento, nem tencionam abrir uma excepção.

As comparações com o clima e a paisagem do Rio de Janeiro são referidas várias vezes, a começar pelo filho mais velho. João esperava ver um Portugal "muito mais parado", mas encontrou animação, natureza e ondas para praticar surf. "Foi surpreendente. A adaptação está a ser muito boa." Em Niterói, a 17 quilómetros do Rio de Janeiro, os pais do adolescente ficavam em sobressalto sempre que ele saía à noite. Fernanda diz que não sabiam "se chegava vivo a casa". O miúdo sempre passou incólume à violência nas ruas, mas a mãe sofria de insónias nessas ocasiões. Foi um factor decisivo para se mudarem para a "Riviera portuguesa" (o rótulo de Cascais divulgado na Internet). "Oiço muita gente dizer: ‘Ai, estou indo para Miami’", diz a imigrante de 41 anos, formada em Direito e casada com Leandro há 19. Na verdade, nunca exerceu advocacia, decidiu dar prioridade à família. O marido, economista, de 46 anos, acrescenta: "Os nossos amigos vão para Flórida ou Portugal. Diria que Cascais é o sonho de consumo. Quero segurança para mim e para a minha família."

Município em parceria com a Casa do Brasil
O município está atento ao boom de brasileiros em idade activa, "de elevada qualificação, mestres, licenciados e altos quadros no País de origem", segundo revela à SÁBADO fonte da Câmara de Cascais. À boleia da onda, e para se aproximar desta comunidade – cada vez mais numerosa no concelho –, a Câmara criou uma parceria com a Casa do Brasil em Setembro de 2016. Por sua vez, a associação prepara o documentário Ser Imigrante em Cascais, que estará concluído no último trimestre de 2017, e abrirá um ponto de atendimento na zona. 

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