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Não há bolha no ouro porque "deixou de ser ativo financeiro e é cada vez mais ativo geopolítico"

Negócios 15:07
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A guerra na Ucrânia e o congelamento de ativos russos em 2022 geraram uma mudança de paradigma na negociação do ouro. O economista Paulo Monteiro Rosa explica que, por esse motivo, não se espera que o metal recue.

Diz-se que tudo o que sobe tem de descer, mas nem sempre os ditados tradicionais vão ao encontro dos mercados financeiros. O ouro tem registado sucessivos recordes, , e Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, não espera ver o preço cair tão cedo.

"Honestamente, não me surpreende esta subida do ouro. Surpreende-me mais a velocidade, a rapidez com que o tem feito, do que a tendência (...) Isto não se trata de uma bolha clássica, é uma mudança estrutural no sistema monetário internacional. Ou seja, o ouro, a meu ver, volta a reassumir o seu papel histórico como reserva de valor num mundo cada vez mais fragmentado", diz em entrevista ao programa do Negócios no canal NOW.

Depois de ter arrancado nos 2.632 dólares por onça, acabou por galgar dois importantes patamares - dos 3.000 e dos 4.000 dólares por onça - e acabou por registar uma subida de 65%, naquela que foi a melhor performance anual desde 1979.

O economista do Banco Carregosa explica que houve uma mudança de paradigma na forma como decorre a negociação deste metal precioso: "Até 2022, o ouro reagia sobretudo aos juros, às taxas de juros reais - ou seja, o ouro não gera nenhum rendimento a partir do momento que as taxas de juros baixam e se aproximam de zero, ganha atratividade face às taxas de juros, face às moedas. No entanto, desde a guerra da Ucrânia, entrou um novo paradigma na negociação do ouro. Deixou de ser tanto um ativo financeiro e passou a ser também, cada vez mais, um ativo geopolítico".

E um dos fatores essenciais, que surgiu no âmbito da guerra, foi o congelamento dos ativos russos pelos países ocidentais em 2022. "Os países do sul global perceberam que as reservas de ouro podem ser politicamente vulneráveis. E isto levou sobretudo a China a acelerar a troca de dólares por ouro", explica Paulo Monteiro Rosa. Apesar de a China ter as maiores reservas financeiras do mundo, apenas 10% desse dinheiro está alocado em ouro - colocando Pequim muito atrás de países ocidentais como Estados Unidos, Alemanha, França, Itália. 

"Percebe-se aqui o potencial de investimento da procura. A China já não é só o maior importador de ouro, mas também é atualmente o maior produtor mundial de ouro. Produz cerca de 400 toneladas anualmente", aponta. Se quiser elevar as reservas de ouro para os níveis de outras economias, será um forte impulsionador de procura e de preço. O economista acredita que Pequim tem esse interesse, até porque fica "menos vulnerável a pressões geopolíticas". Além disso, "é provável que continue a compra por parte do Banco Central Europeu", o que, tudo somado, continuará a suportar o ouro.

A ajudar neste contexto estão ainda a desvalorização do dólar - moeda em que é negociado o ouro -, pressionada pelos elevados défices e dívida pública dos Estados Unidos. Esta "pressão estrutural sobre a moeda norte-americana" favorece o ouro "como uma alternativa de reserva de valor" - levando, por arrasto, outros metais, como a .