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Tiago Freitas
Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
13 de março de 2026 às 17:55

Poucochinho

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Edição de 10 a 16 de março

As sondagens continuam a sugerir a mesma conclusão: o atual projeto governativo ainda não convenceu plenamente o eleitorado.

As mais recentes sondagens, quer a da Aximage para o Diário de Notícias, quer a da ICS/ISCTE para o Expresso e SIC, mostram um conjunto de tendências que parecem relativamente consistentes no cenário político português após as eleições presidenciais. A primeira é a descida da coligação governativa; a segunda é a aproximação do PS; e a terceira é a consolidação do Chega como o principal beneficiário do capital eleitoral acumulado por André Ventura nas presidenciais.

Segundo esses estudos, o Chega sobe para valores próximos dos 25%, quando há pouco tempo se situava perto dos 21%. Esta evolução parece dar razão a quem sublinha o chamado fenómeno da “habituação do voto”: o mais difícil para muitos eleitores é votar pela primeira vez num partido considerado disruptivo. Uma vez quebrada essa barreira psicológica, a fidelização torna-se mais fácil.

Curiosamente, esta subida ocorre depois de Ventura ter conhecido os seus próprios limites numa eleição presidencial relativamente pobre em grandes candidaturas, o que lhe permitiria, em tese, ter um resultado bem mais expressivo. No confronto decisivo da segunda volta, saiu derrotado de forma clara por um adversário eleitoralmente pouco entusiasmante. Há uma rejeição endémica e talvez imutável em dois terços do eleitorado, e Ventura terá muita dificuldade em chegar ao poder. Talvez um dia encontre , e permita, o surgimento do seu Bardella.  Ainda assim, houve muitos milhares de portugueses que votaram nele pela primeira vez. E assistiu-se mesmo a um curioso fenómeno discursivo: numa eleição unipessoal, em que formalmente não existem partidos a sufrágio, ouviu-se repetidamente a pergunta “votas no Seguro ou no Chega”, lembrando essa realidade peculiar da criatura e o seu criador serem uma única e singular entidade.

Outro dado interessante das sondagens é a perceção de liderança da oposição. Dois terços dos inquiridos, incluindo muitos eleitores socialistas,  consideram que é André Ventura, e não José Luís Carneiro, quem lidera a oposição ao Governo. Paradoxalmente, é Carneiro quem surge em condições de liderar o partido potencialmente mais votado caso houvesse eleições hoje.

Esse contraste talvez se explique por aquilo que poderíamos chamar um “efeito Seguro”. José Luís Carneiro partilha com o atual Presidente da República um certo estilo político sóbrio, discreto e pouco exuberante. António José Seguro venceu eleições internas e liderou o PS durante anos com um perfil semelhante. A questão é saber até que ponto esse estilo consegue mobilizar eleitorado num contexto político cada vez mais polarizado.

Importa dizer que José Luís Carneiro tem currículo governativo respeitável. Foi um competente secretário de Estado das Comunidades e um ministro da Administração Interna sólido num dos cargos mais difíceis da governação. Mas liderança política, carisma e capacidade mobilizadora são outra coisa. E é precisamente aí que o PS parece apresentar o secretário-geral menos carismático da sua história recente.

O problema é que, mesmo assim, mesmo com o adversário tradicional menos carismático e entusiasmante da vida democrática,  o PSD , ou melhor, a AD, aparece atrás nas sondagens. E convém sublinhar que a AD inclui ainda o resíduo eleitoral do CDS, que vale um ou dois pontos percentuais. Se esse eleitorado fosse retirado do estudo, auscultando apenas quem vota no PSD atual, estaríamos provavelmente perante um cenário em que o partido de Montenegro vale, isoladamente, menos do que este empate técnico com PS e Chega.

Em suma: para um projeto governativo em funções, o resultado é, no mínimo, pouco entusiasmante. Ou, para usar uma expressão que os portugueses, e Seguro em particular, bem conhecem, vale…. poucochinho.

Há ainda outros elementos que ajudam a explicar esta fragilidade. O primeiro é a irrelevância eleitoral crescente do Bloco de Esquerda, que algumas sondagens colocam entre 0,9% e 2%, apesar da sua visibilidade mediática muitas vezes desproporcionada. Por comparação,  partidos ou movimentos como o JPP de Filipe Sousa, a Nova Direita de Ossanda Liber ou o ADN de Bruno Fialho, que terão uma valia eleitoral ao nível do BE de Pureza,  continuam praticamente invisíveis, sem eufemismos – “discriminados”,  nos estudos de opinião e no espaço mediático.

O segundo elemento prende-se com o chamado “cutelo judicial” que paira sobre Luís Montenegro. A abertura de novos inquéritos relacionados com a construção da sua casa e a decisão do Tribunal Constitucional que o obriga a divulgar a lista de clientes da sua empresa familiar mantêm o tema permanentemente na agenda política. Isso deixa adversários, internos e externos, atentos à possibilidade de, a qualquer momento, surgir um episódio que fragilize ainda mais o primeiro-ministro.

A própria estratégia política adotada por Montenegro pode contribuir para aumentar a instabilidade. A promessa do Presidente da República de não convocar eleições em caso de chumbo do Orçamento retira pressão ao PS e ao Chega para viabilizarem o documento. Se a ameaça de crise política desaparece, desaparece também um dos principais incentivos para que a oposição permita a aprovação do orçamento.

Nesse cenário, Montenegro enfrenta um dilema: governar em duodécimos,  o que até lhe permitiria evitar reformas mais profundas, como já não consegue disfarçar a alergia, ou dramatizar politicamente a situação e provocar uma clarificação. De resto, foi isso que fez aquando da comissão de inquérito à Spinumviva, quando se demitiu ou, mais recentemente, quando antecipou as diretas dos PSD, perante a sombra cada vez mais densa de uma alternativa dentro do partido.

Pode também recorrer a uma fórmula já conhecida da política portuguesa. Há doze anos, e ainda no episódio do “poucochinho”,  perante pressões políticas de António Costa, António José Seguro perguntava: “qual é a pressa?”. Montenegro pode tentar ganhar tempo com o mesmo argumento, esperando que o desgaste da governação diminua e que a AD consiga recuperar nas sondagens.

Mas existe um fator adicional que o primeiro-ministro não controla totalmente: o espaço político à sua direita. Nesse campo, continua a haver uma figura, a tal sombra que se adensa,  com capacidade comprovada de mobilização eleitoral. Pedro Passos Coelho.

Passos tem uma característica que o distingue de muitos líderes partidários: consegue recuperar para o PSD uma parte significativa do eleitorado que hoje oscila entre o Chega e a Iniciativa Liberal. E fá-lo sem hostilizar permanentemente essas forças políticas. Pelo contrário, tende a manter pontes abertas enquanto elas não estiverem no poder executivo.

É uma estratégia racional. Atacar frontalmente potenciais aliados ideológicos é a forma mais rápida de perder os seus eleitores. Passos sabe onde está, conhece os portugueses e, raramente, cai nessa tentação.

Por isso mesmo, talvez fosse interessante ver uma sondagem que incluísse explicitamente o seu nome no cenário político. É possível que algumas das respostas que hoje parecem contraditórias passassem a fazer muito mais sentido.

Até lá, as sondagens continuam a sugerir a mesma conclusão: o atual projeto governativo ainda não convenceu plenamente o eleitorado. E, pelo menos por agora, aquilo que oferece aos portugueses continua a saber a poucochinho.

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