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Irão: Agricultores alertam para aumentos e defendem que receita fiscal não pode subir

Lusa 22 de março de 2026 às 09:11

"A guerra vai durar quanto tempo? Esta é a questão que muda a equação e o impacto", alertou o secretário-geral da CAP.

A Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) alertou que, se conflito no Médio Oriente se prolongar e agudizar, o preço dos alimentos vai disparar e defendeu que a receita fiscal do Estado não pode beneficiar desta situação.

Pedro Catarino

"O mercado dos combustíveis não se pode regular, mas podem existir compensações para os agricultores que utilizam gasóleo. Quando aumenta o preço, a receita do Estado também aumenta", apontou o secretário-geral da CAP, Luís Mira, em declarações à Lusa.

Mesmo com o desconto sobre o ISP - Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos, a receita do Estado vai sofrer um aumento de 10% devido à escalada dos preços, o que para a CAP não pode acontecer.

Os agricultores têm de recorrer, sobretudo, ao gasóleo para trabalhar, uma vez que o mercado não dispõe, em quantidade, de tratores elétricos. Entre 60% a 70% do combustível utilizado na agricultura é gasóleo.

Luís Mira avisou que o impacto pode ser ainda maior, caso o conflito se prolongue e intensifique, nomeadamente, com ataques a estruturas de refinação, que demoraram anos a serem construídas.

Caso se prolongue, a produção ficará mais cara e, consequentemente, o preço dos alimentos também.

"A guerra vai durar quanto tempo? Esta é a questão que muda a equação e o impacto", alertou o secretário-geral da CAP.

A confederação lembrou também que, além da questão energética, existe um grande impacto nos adubos, uma vez que cerca de 25% vem daquela região.

Metade dos alimentos produzidos a nível mundial depende da utilização de adubos.

É possível redirecionar as compras, caso se mantenham os constrangimentos, mas o preço também vai aumentar, sublinhou.

A isto somam-se os impactos indiretos, por exemplo, no setor dos pequenos frutos, que exporta para os Emirados de avião, o que permite que o setor consiga um preço mais elevado pelo produto, mas esta rota pode ter que ser suspensa devido ao conflito.

Por outro lado, o aumento no preço dos adubos faz com que os agricultores americanos troquem a produção de milho pela soja, o que "vai mexer no preço à escala global, até em Portugal".

Se o preço continuar a aumentar, "passa a ser rentável fazer do milho bioetanol e isso diminuiu milho disponível para as rações dos animais", o que também agrava o valor das mesmas, acrescentou.

No mesmo sentido, a Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri) disse à Lusa que o aumento dos combustíveis terá obrigatoriamente consequências no preço dos fatores de produção, como gasóleo, energia, fertilizantes e transporte, que influenciam diretamente o valor dos produtos agroalimentares.

"Esta é uma realidade que já estamos a viver hoje e, sem medidas públicas extraordinárias que mitiguem estes custos, é natural que estes aumentos cheguem ao bolso dos consumidores", apontou o secretário-geral da Confagri, Nuno Serra.

O antigo deputado notou ainda que a pressão sobre este setor terá tendência a aumentar à medida que o se prolongue o conflito, sem que exista uma solução para a questão dos combustíveis.

"A possibilidade de existirem alguns bloqueios na cadeia de abastecimento alimentar também terá consequências no preço dos produtos agrícolas, como já começa a acontecer em algumas geografias mundiais", concluiu.

Os Estados Unidos e Israel lançaram em 28 de fevereiro um ataque militar ao Irão, que justificaram com a inflexibilidade da República Islâmica nas negociações para pôr fim ao enriquecimento de urânio no âmbito do seu programa nuclear, que afirma destinar-se apenas a fins civis.

Em retaliação, o Irão encerrou o estreito de Ormuz e lançou ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e infraestruturas civis em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.

Desde a semana de 25 de fevereiro e até 18 de março, registaram-se subidas de 16 cêntimos no preço da maçã golden, de 15 nos brócolos e de nove cêntimos no da cenoura, segundo dados da Deco enviados à Lusa.

O preço da laranja e do tomate aumentou sete cêntimos e o da couve-coração um cêntimo, enquanto o valor da batata vermelha ficou estável, à semelhança do que aconteceu com as embalagens de 500 gramas de alho seco.

Contudo, neste período, também se registaram descidas de preços, como a curgete, cujo quilograma (kg) ficou mais barato 69 cêntimos, e do da alface, que desceu 23 cêntimos. Depois surge a cebola, mais barata 11 cêntimos.

Com descidas mais modestas aparecem a banana (menos quatro cêntimos), a maçã gala e a couve-flor (ambas com descidas de três cêntimos por kg).

Estes dados refletem a monitorização que a Deco faz aos preços dos produtos vendidos diretamente ao consumidor nos supermercados 'online'.

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