Curiosidades dos Mundiais de futebol (7): A mão do deus Maradona
O México 86 viu nascer um ídolo, com El Pibe a arrasar a Inglaterra. Quanto a Portugal, correu tudo mal, no que ficaria conhecido como "escândalo Saltillo". O Itália 90 foi dos mais soporíferos, mas houve um raio de sol: Roger Milla. Foi também a primeira vez uma equipa (Argentina) não marcou na final.
O Mundial 2026 começa no próximo dia 11 de junho, com o México-África do Sul como jogo de abertura – vai acontecer no estádio Azteca, da Cidade do México, que vai ser o primeiro a receber partidas de três Mundiais (o México organizou o torneio em 1970 e 1986). Este é também o primeiro Mundial de futebol a realizar-se em três países (Estados Unidos, México e Canadá), algo que vai voltar a acontecer em 2030, pois a competição desse ano decorrerá em Espanha, Portugal e Marrocos. Enquanto não começa a febre dos jogos (e este ano serão, no total, 104, pois este vai ser o Mundial com mais seleções de sempre, 48), veja aqui algumas curiosidades ao longo de quase 100 anos da história da prova. Até ao início, vamos publicar todos os dias curiosidades à volta de dois Mundiais, num total de 11 textos. Este aborda os Mundiais de 1986 e 1990.
Mundial 1986
País organizador: México
Vencedor: Argentina
1. Mais do que ter uma seleção campeã, o Mundial do México foi ganho por um jogador: Maradona. O astro argentino disse um dia: “Imaginem o que teria sido a minha carreira sem as drogas…”. Ainda assim, para muitos é o melhor jogador de sempre, e no México provou-o, com dados estratosféricos: El Pibe marcou cinco golos, foi o jogador com mais assistências (5), com mais ocasiões de golo criadas (27) e dribles conseguidos (53). Este último número é recorde em Mundiais desde que há estatísticas (1966).
2. Maradona ficou ainda imortalizado neste Mundial pelo “Golo do século”, marcado à Inglaterra, em que ele pega na bola no meio campo e em 10 segundos (dando 12 toques na bola, todos com o pé esquerdo) passa por seis jogadores, enganando ainda o guarda-redes Peter Shilton. E três minutos antes já tinha enganado toda a gente, até o árbitro, o tunisino Ali Bin Nasser, ao marcar com a mão, num lance que ficaria conhecido como “A Mão de Deus”.
3. Estava previsto que o Mundial de 1986 acontecesse na Colômbia, que tinha sido a localização escolhida pela FIFA. Mas a quatro anos do arranque da prova o país desistiu, devido às exigências da FIFA para um torneio que foi alargado de 16 para 24 participantes.
4. A FIFA ofereceu a organização do Mundial aos Estados Unidos, ao Brasil e ao Canadá, mas os governos desses três países recusaram. Em 1983, chegou-se a acordo com o México, que se tornou assim o primeiro país a organizar duas vezes o Mundial (já tinha acontecido em 1970). E nem mesmo os terramotos que afetaram o país, um ano antes da competição arrancar, impediram a realização do torneio.
5. Portugal teve a sua segunda participação num Mundial (qualificando-se de forma milagrosa com a vitória sobre a Alemanha em Estugarda, com um grande golo de Carlos Manuel), mas tudo correu mal, desde problemas de organização (nem havia equipas para fazer jogos-treino) até às guerras entre os jogadores e a Federação relacionadas com os prémios a atribuir, naquilo que ficou conhecido como “escândalo Saltillo” – a localidade onde a equipa ficou sediada, no México.
6. Em termos desportivos, Portugal até começou bem, com uma vitória (1-0) sobre a favorita do grupo, a Inglaterra. Ou seja, um empate com a Polónia, no segundo jogo, garantia o apuramento. Só que a equipa das Quinas perdeu (1-0) com os polacos e seria depois eliminada no jogo decisivo, frente a Marrocos, ao perder por 3-1. Face a este resultado, Marrocos tornou-se assim a primeira seleção africana a chegar aos oitavos de final de um Mundial.
7. Alex Ferguson, que viria a ser uma figura lendária do Manchester United (é o treinador com mais troféus do clube), em 1986 era treinador do Aberdeen e fazia parte da equipa técnica da seleção escocesa em part-time. O que ele não estava a contar é que se ia tornar o técnico principal, após a morte de Jock Stein, vítima de ataque cardíaco no dia em que a seleção garantiu o play-off de acesso ao Mundial.
8. No México 86, a Escócia ficou no chamado “Grupo da Morte”, com Alemanha, Dinamarca e Uruguai. A seleção britânica perdeu os dois primeiros jogos, mas ainda tinha hipótese de se apurar como um dos melhores terceiros classificados se vencesse o Uruguai. Acabou por empatar 0-0, num jogo muito duro, com Ferguson, no final, a mostrar-se furioso pela violência usada pelos jogadores sul-americanos, dizendo mesmo que, face ao que aconteceu, se sentia “feliz por ir para casa”, criticando o estado a que o futebol chegara.
Mundial 1990
País organizador: Itália
Vencedor: Alemanha
1. Talvez o facto de o Mundial ser em Itália, o país do catenaccio, tenha contagiado as seleções participantes, que se destacaram pelo estilo defensivo. A média de golos, de 2,21 por jogo, é ainda hoje a mais baixa dos Mundiais.
2. Estreante em Mundiais, a Irlanda chegou aos quartos de final sem ter ganho qualquer jogo, registando três empates na fase de grupos (0-0 com o Egito e 1-1 frente a Inglaterra e Holanda), eliminando nos oitavos a Roménia nos penáltis, após mais um 0-0. Nos quartos, os irlandeses perderam (1-0) com a Itália, em mais um jogo pobre.
3. Após este Mundial soporífero e nada entusiasmante, a FIFA decidiu fazer alterações nas regras, acabando com a possibilidade de os guarda-redes agarrarem a bola se fosse passada por um colega de equipa (tinham de jogar com o pé, tal como ainda acontece hoje).
4. Chile, México e França foram as ausências mais notadas no Mundial 90. A seleção europeia foi afastada no apuramento pela Escócia por apenas um ponto, enquanto as sul-americanas foram suspensas. No caso do México, isso aconteceu devido ao uso de quatro jogadores acima da idade permitida num torneio de seleções sub-20.
5. O caso do Chile foi mais complicado. Tudo aconteceu durante o Brasil-Chile, do apuramento, quando os adeptos brasileiros atiraram bombas de fumo para o campo, que supostamente atingiram o guarda-redes Roberto Rojas. A sangrar da cabeça, ele saiu de maca e os seus colegas, em protesto, abandonaram o campo. Os chilenos queriam que a seleção brasileira fosse afastada, mas a FIFA instaurou um inquérito e ao observar com cuidado os vídeos existentes, percebeu-se que Rojas simulara os ferimentos com uma lâmina que tinha escondida numa luva.
6. O incidente levou a que o guarda-redes Rojas tivesse sido suspenso de todas as competições internacionais (a sanção só iria ser levantada em 2000) e a que a seleção do Chile fosse afastada dos Mundiais de 1990 e 1994.
7. Uma das seleções em destaque no Mundial de 1990 foi a dos Camarões, que logo no primeiro jogo bateu a Argentina de Maradona, tornando-se a primeira a seleção africana a atingir os quartos de final.
8. Roger Milla foi a grande figura dos Camarões, com quatro golos. O avançado tinha-se retirada em 1988 e decidiu regressar, chegando ao Mundial com 38 anos. E bateu o recorde de mais velho a marcar na competição, que já era seu, do Mundial anterior.
9. A Alemanha venceu a Argentina (1-0, com um golo de penálti de Brehme a cinco minutos do fim) e festejou o título mundial, numa final desinteressante e que ficou para a história por se ter registado a primeira expulsão no jogo decisivo de um Mundial. Aconteceu aos 65 minutos, quando o argentino Pedro Monzón viu o vermelho direto. E mesmo no fim (87 minutos), o seu colega Gustavo Dezotti também foi expulso.
10. A seleção argentina foi a primeira a não marcar golos numa final, acabando com uma tradição de muitos golos – com efeito, a final de 1958, entre o Brasil e a Suécia (5-2), teve sete golos, mas houve três que terminaram com o resultado de 4-2 e duas 3-2, incluindo a anterior, no México 86, entre a Argentina e a Alemanha.