Este tipo de eclipse não é visível em Portugal há mais de 100 anos. No século passado, um eclipse semelhante provou a Teoria da Relatividade, de Einstein, explica o professor do departamento de Física da NOVA FCT, Filipe Ferreira da Silva.
O eclipse total do sol de quarta-feira é um fenómeno raro ou raramente observado em Portugal? O professor do departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, Filipe Ferreira da Silva, explica à SÁBADO que o fenómeno acontece “com alguma periodicidade e vai sendo experienciado em diferentes partes do planeta. Em Portugal é que não tem sido visível”. Por cá, já se observaram outros eclipses, mas a diferença está no tipo (parcial e não total) e na percentagem de ocultação, que desta vez é muito mais elevada. Será uma oportunidade única para observar e estudar o fenómeno, além de relembrar a história da ciência: sabia, por exemplo, que o eclipse total do sol de 1919 comprovou a Teoria da Relatividade de Einstein? Conheça esta e outras curiosidades.
Eclipse solar total será visto em PortugalAP Photo/Julio Cortez
Durante a “trajetória dos astros terrestre e lunar”, que giram em volta de si próprios e à volta do sol, “o alinhamento entre os três vai acontecendo ocasionalmente”. Um eclipse total do sol acontece quando a lua se alinha perfeitamente entre o sol e o planeta Terra, cobrindo por completo a luz solar momentaneamente.
1Quando ocorreu o último eclipse?
O último eclipse total do sol registou-se a 8 de abril de 2024 e, antes desse, a 4 de dezembro de 2021, segundo o registo da NASA. Além desses, todos os anos acontecem eclipses lunares e solares, uns parciais e outros totais.
No entanto, muitos deles não são avistados em Portugal porque podem acontecer num ponto longínquo ao território português. O último eclipse total do sol com visibilidade em Portugal ocorreu em 1912, há mais de 100 anos. “É isso que confere uma dimensão rara ao acontecimento desta quarta-feira", explica o especialista. Terá 100% de visibilidade no Parque Natural de Montesinho, nas aldeias de Guadramil e Rio de Onor, no distrito de Bragança. No resto do país, a visibilidade desce até aos 93% e, nas ilhas, fica na ordem dos 70%.
No distrito de Bragança, a visibilidade chegará aos 100%Eclipse2026
2Que tipos de eclipse existem?
Os eclipses dividem-se primeiro em dois grupos: lunares e solares. Como o nome indica, os primeiros referem-se à lua e os segundos ao sol. Distinguem-se pela posição dos três elementos: se a lua estiver no meio, é solar; enquanto que se a Terra estiver no meio, é lunar. Depois podem ser parciais ou totais, consoante a percentagem de ocultação do astro.
Os eclipses solares podem ser também anulares quando a lua está mais longe da Terra e parece menor, criando um anel brilhante em volta do disco lunar; ou híbrido quando numa zona da Terra é anular e noutra é total.
Já os eclipses lunares podem sair ainda penumbrais, se a lua apenas passar pela zona externa e mais clara da sombra terrestre (a penumbra), causando somente um escurecimento subtil.
3Quando se repetirá?
É já no próximo ano, a 2 de agosto, que o fenómeno se repetirá, mas, mais uma vez, sem visibilidade em Portugal. Para ser avistado em território nacional, só em 2144.
4O que mudará durante o eclipse?
O mais esperado é a diminuição drástica da luz solar. Nas aldeias com 100% de visibilidade, o dia tornar-se-á em noite. Já no resto do território, “o eclipse será parcial”, logo, a redução de luz será menor.
Além disso, a temperatura ambiente poderá baixar “cerca de dez graus” porque “a radiação do sol terá totalmente tapada pela lua”, explica o professor. “É como quando estamos deitados na praia e passa uma nuvem que encobre o sol, também sentimos a diferença”, compara. A alteração da temperatura “provocará também algum vento”.
Será uma oportunidade para “biólogos estudarem o comportamento dos animais”, já que se espera uma “reação diferente ao perceberem que aquela fase do dia não é normal”. Regidos por determinados hábitos e acostumados a que o dia termine mais tarde, os animais podem confundir os momentos de escuridão com a noite. Assim, animais de hábitos noturnos podem despertar mais cedo, enquanto os diurnos podem recolher-se.
5E o que será visível no céu?
O fenómeno vai começar com o gradual encobrimento do sol pela lua, seguido do preenchimento total do disco solar durante 26 segundos e terminando com o afastamento da lua.
Durante esse processo, serão visíveis fases como as Pérolas de Bailey, a Coroa Solar e o Anel de Diamante. “Vamos ver partes do sol que de outra forma não seria possível”, avança.
6Como é que a lua tapa o sol, se é mais pequena?
Tem a ver com a posição de cada elemento. Filipe Ferreira da Silva exemplifica: “As nuvens também tapam o sol, embora sejam menores, porque estão mais perto de nós. Ou se segurarmos numa bola de pingue-pongue em frente ao sol também o tapamos.”
“A lua está 400 vezes mais longe do sol do que a Terra e é 400 vezes menor do que o sol”, afirma o professor. “Isto faz com que, na trajetória mais próxima da Terra, a lua consiga tapar a totalidade do sol.”
7Que relação é que um eclipse total do sol tem com Einstein?
O físico alemão Albert Einstein criou, em 1915, a Teoria da Relatividade Geral, que desafiava a teoria anterior desenvolvida por Isaac Newton. Defendia que a gravidade não era uma força de atração entre duas massas, como enunciado por Newton, mas antes uma consequência da curvatura do espaço-tempo, derivada da presença de massa e energia. Contudo, a sociedade científica da época não aceitou de imediato essa alternativa.
Foi então que em 1919 um eclipse total do sol veio confirmar a teoria de Einstein. “Através de dois pontos de observação - na ilha do Príncipe, em São Tomé e Príncipe, e no Sobral, no estado do Ceará, no Brasil -, confirmou-se a distorção de luz muito próxima ao sol”, refere o professor. A equipa liderada pelo astrónomo britânico Arthur Eddington observou estrelas que normalmente estão tapadas pela radiação solar.
“A luz é refletida na proximidade do astro solar”, ou seja, as medições permitiram constatar que a luz sofria um desvio ao passar nas proximidades do sol. “Foi possível atestar a teoria devido ao sol estar tapado”, explica Filipe Ferreira da Silva.
8O que é possível estudar a partir do eclipse desta quarta-feira?
O eclipse é uma oportunidade para cientistas, investigadores, físicos e astrónomos estudarem o fenómeno e “tudo o que são movimentos de astros, atmosfera solar e conhecer, por exemplo, em detalhe, as erupções solares que são origem às auroras boreais”.
Já para o público em geral, Filipe Ferreira da Silva recomenda a consulta da informação que tem sido divulgada a propósito deste acontecimento. Em concreto, destaca o livro ‘O Céu é o Máximo’, de Máximo Ferreira, ou os recursos dos Centros de Ciência Viva. “Portugal está felizmente a evoluir no sentido da divulgação científica”, congratula.
De relembrar que o uso de óculos de proteção certificados (com a norma ISO 12312-2 e a regulação europeia CE) é fundamental para a observação do eclipse. Olhar diretamente para o sol pode causar danos irreversíveis na visão, ainda que não provoque dor imediata.
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