O vigilante aumentado: a inteligência artificial como braço direito da segurança privada
A máquina vê mais, mais depressa e sem cansaço. Mas continua a não saber o que está a ver. É aí que começa, e não acaba, o trabalho do vigilante.
São três da manhã num centro comercial da periferia de Lisboa. Na central de segurança, um vigilante tem à sua frente uma parede de monitores com dezenas de imagens em mosaico, corredores vazios, cais de carga, parques de estacionamento. Os estudos clássicos sobre operadores de videovigilância, como os desenvolvidos pelos Sandia National Laboratories para o Departamento de Justiça norte-americano, demonstraram há mais de duas décadas que a capacidade de atenção de um operador perante vários ecrãs se degrada de forma acentuada ao fim de cerca de vinte minutos. Durante anos, o setor viveu com esta limitação humana como se fosse uma fatalidade. A inteligência artificial veio mudar a equação: hoje, o sistema observa todas as câmaras em simultâneo, filtra o irrelevante e entrega ao vigilante apenas o que merece um olhar humano. A pergunta que se impõe não é se a IA vai entrar na segurança privada, porque já entrou. A pergunta é que vigilante vamos ter quando ela estiver em todo o lado.
Convém começar pelos números, porque o setor é maior e mais estratégico do que a perceção pública sugere. Segundo dados da Informa D&B, o volume de negócios das empresas de segurança privada em Portugal cresceu 8,5% em 2024, ultrapassando os 1,2 mil milhões de euros. A vigilância humana continua a gerar a maior parte das receitas, com 837 milhões de euros, mais 8% do que em 2023, mas foi a instalação, manutenção e exploração de sistemas eletrónicos que mostrou maior dinamismo, crescendo 9,8% para 291 milhões. A Administração Pública é o principal cliente, com quase um terço do volume de negócios, e em setembro de 2025 havia 77 empresas habilitadas pelo Ministério da Administração Interna, menos seis do que no ano anterior. O Estado mantém um olhar atento: o RASI de 2025 regista 7.546 fiscalizações no âmbito da segurança privada. E o enquadramento jurídico é claro quanto ao lugar do setor, pois o regime em vigor, a Lei n.º 34/2013, de 16 de maio, alterada e republicada pela Lei n.º 46/2019, de 8 de julho, consagra o carácter subsidiário da segurança privada face às forças e serviços de segurança do Estado. A tecnologia está a crescer mais depressa do que o músculo, mas o músculo continua a ser a espinha dorsal do negócio. Esta é a fotografia de uma transição, não de uma substituição.
O que faz, concretamente, a IA neste contexto? A aplicação mais madura é a videoanálise inteligente: algoritmos de visão computacional que distinguem uma pessoa de um animal, um veículo parado de um veículo em fuga, um volume abandonado de um caixote do lixo. Os grandes operadores internacionais já vendem este modelo como serviço integrado, com análise de vídeo concebida para filtrar movimento irrelevante e destacar intrusões reais, ignorando, por exemplo, um gato que atravessa o pátio. A isto somam-se a pesquisa de vídeo em linguagem natural (pedir ao sistema "mostra-me todas as pessoas com casaco vermelho que entraram pela porta norte entre as 22h e a meia-noite"), o reconhecimento de matrículas, o controlo de acessos multifator, os drones, os robôs de patrulha e a análise preditiva. Um levantamento sobre o setor em 2026 identifica cinco aplicações dominantes: videoanálise inteligente, drones como primeira resposta, robôs autónomos de patrulha, despacho otimizado por IA e análise preditiva. Também a IA generativa entra na rotina: o relatório de tendências tecnológicas da Securitas Technology aponta a deteção automatizada de ameaças e a pesquisa de vídeo como casos de uso com forte interesse das organizações, a par da geração automática de relatórios. O resultado é uma redistribuição do esforço. Segundo a mesma empresa, em muitas regiões um único profissional altamente treinado, apoiado por videoanálise, controlo de acessos em várias camadas e monitorização inteligente, consegue hoje fazer o trabalho que antes exigia vários elementos. Repare-se na expressão: altamente treinado. É aqui que está o centro de toda esta discussão.
Porque é que o vigilante continua a ser primordial? Porque a máquina deteta padrões, mas não compreende intenções. Um algoritmo assinala que alguém está parado há sete minutos junto a uma porta de serviço; só um ser humano percebe se é um assaltante a estudar o local, um funcionário à espera de boleia ou uma pessoa em sofrimento que precisa de ajuda. Os próprios fornecedores reconhecem esta fronteira: na Securitas, o discurso interno sobre IA converge na ideia de que a tecnologia acelera a perceção, mas são as pessoas que trazem contexto e juízo, e que só uma pessoa consegue avaliar a intenção por detrás de uma ação. Há ainda dimensões que nenhum software substitui: a presença dissuasora, a capacidade de desescalar um conflito com palavras, a prestação de primeiros socorros, a decisão de evacuar, a interação com a PSP ou a GNR quando chegam ao local. Juridicamente, os poderes do vigilante (controlo de acessos, revistas nos casos legalmente previstos, retenção de suspeito em flagrante delito até à chegada da autoridade) pressupõem um ser humano responsável e identificável. Até os indicadores de mercado de trabalho apontam nesse sentido: o Bureau of Labor Statistics norte-americano projeta crescimento nulo do emprego de vigilantes até 2034, o que reflete a substituição de funções incrementais pela tecnologia e não a eliminação da força de trabalho existente. Menos vigilantes a olhar para ecrãs; mais vigilantes a decidir com base no que os ecrãs lhes mostram.
O Direito europeu reforça, aliás, esta centralidade humana. O Regulamento da Inteligência Artificial (Regulamento (UE) 2024/1689) proíbe desde 2 de fevereiro de 2025 práticas que tentariam qualquer operador menos escrupuloso: o reconhecimento de emoções no local de trabalho, a categorização biométrica para inferir características sensíveis e a recolha indiscriminada de imagens faciais para construir bases de dados de reconhecimento. A identificação biométrica à distância é classificada como de risco elevado, com obrigações de supervisão humana (artigo 14.º) e deveres para quem utiliza estes sistemas, incluindo atribuir essa supervisão a pessoas com competência, formação e autoridade (artigo 26.º). O calendário mudou recentemente: o Regulamento (UE) 2026/1744, conhecido como Omnibus Digital da IA, foi publicado no Jornal Oficial a 24 de julho de 2026, entrou em vigor a 27 de julho e adiou a aplicação das regras para sistemas autónomos de risco elevado do Anexo III de 2 de agosto de 2026 para 2 de dezembro de 2027. Seria um erro ler este adiamento como uma folga. A classificação do Anexo III não foi alterada pelo Omnibus, o que significa que a biometria continua no topo da exigência regulatória. Acresce o RGPD, a Lei n.º 58/2019 e o próprio regime da segurança privada, que disciplina a videovigilância e impõe a conservação das imagens por um prazo de 30 dias. Uma empresa que instale reconhecimento facial num condomínio ou numa discoteca sem avaliação de impacto, sem base legal e sem supervisão humana qualificada não está a inovar: está a acumular passivo jurídico.
E é precisamente aqui que o vigilante tem de acompanhar a tecnologia. O Regulamento da IA impõe uma obrigação que muitos operadores ainda não interiorizaram: a literacia em IA. Na redação dada pelo Omnibus, os fornecedores e responsáveis pela implantação devem tomar medidas para apoiar o desenvolvimento da literacia em IA do seu pessoal e de outras pessoas que operam e utilizam sistemas de IA em seu nome, e esta obrigação aplica-se desde 2 de fevereiro de 2025, mantendo os próprios considerandos do Omnibus que a literacia em IA deve ser uma prioridade estratégica, independentemente de obrigações regulatórias e sanções. Traduzido para o terreno: uma empresa de segurança que entregue a um vigilante uma consola com videoanálise tem de lhe ensinar o que o sistema faz, onde falha e quando deve ser contrariado. O vigilante do futuro próximo precisa de saber interpretar um alerta com grau de confiança, reconhecer o enviesamento de automação (a tendência humana para confiar cegamente na máquina), perceber noções básicas de proteção de dados e, cada vez mais, de cibersegurança. As câmaras IP, os controladores de acesso e as centrais de alarme são hoje dispositivos ligados à rede e, portanto, superfícies de ataque. E o vigilante passou a ser alvo de engenharia social sofisticada: o RASI de 2025 sublinha que a integração da IA na atuação de atores hostis se tornou constante, facilitando ataques de ransomware, engenharia social e a criação de deepfakes. Uma chamada com a voz clonada do gestor do edifício a ordenar a abertura de uma porta às duas da manhã é um cenário plausível. Só um profissional formado para desconfiar e verificar trava esse ataque. Os currículos de formação do pessoal de vigilância têm de ser revistos à luz desta realidade, e o Estado, através do MAI e do Departamento de Segurança Privada da PSP, tem aqui uma responsabilidade direta.
Há também riscos que o entusiasmo comercial tende a esconder. Os modelos de visão computacional erram, e erram de forma desigual, com taxas de falsos positivos que podem variar consoante condições de luz, ângulos de câmara ou características físicas das pessoas, o que gera abordagens injustas e potencialmente discriminatórias se o vigilante agir sem pensar. A investigação académica demonstrou que estes sistemas podem ser enganados deliberadamente: o trabalho de Thys, Van Ranst e Goedemé, apresentado em 2019, mostrou que um simples padrão impresso e segurado à frente do corpo era suficiente para tornar uma pessoa "invisível" a um detetor de pessoas amplamente utilizado. Há a dependência de fornecedores e a questão da soberania dos dados, quando imagens de infraestruturas críticas são processadas em nuvens fora do espaço europeu, matéria que o novo regime nacional de cibersegurança, resultante da transposição da Diretiva NIS2, torna incontornável para muitas entidades. E há um risco social: usar a IA como pretexto para cortar efetivos e manter salários baixos num setor que já luta para atrair e reter talento. A tecnologia deve libertar o vigilante das tarefas repetitivas para o elevar a funções de maior valor, não para o tornar descartável. Um vigilante mais qualificado deve ser um vigilante mais bem pago, e os clientes, a começar pela Administração Pública, têm de valorizar essa qualificação nos cadernos de encargos em vez de decidir apenas pelo preço mais baixo.
O futuro da segurança privada não será feito por robôs que patrulham sozinhos nem por vigilantes que ignoram a tecnologia. Será feito pelo vigilante aumentado: um profissional que trabalha lado a lado com sistemas inteligentes, que lhes delega a vigilância exaustiva e reserva para si o discernimento, a autoridade e a responsabilidade. A IA será o braço direito; a cabeça e o coração continuam a ser humanos. Para que esta parceria funcione, cada ator tem de fazer a sua parte. As empresas têm de investir em formação séria e certificada, e não em ações de sensibilização de uma tarde. O Estado tem de atualizar o quadro regulamentar e os conteúdos formativos do setor. E os próprios vigilantes têm de encarar a tecnologia como uma aliada da sua profissão e não como uma ameaça. Quem aprender a trabalhar com a máquina terá uma carreira mais segura, mais qualificada e mais respeitada. Quem se recusar a fazê-lo arrisca-se a ficar, literalmente, do lado de fora da porta que devia guardar.
O vigilante aumentado: a inteligência artificial como braço direito da segurança privada
Um vende liderança, o outro vende acesso. No mercado global da tecnologia, quem controla o acesso costuma ganhar mais do que quem proclama a liderança.
O incidente da Hugging Face foi um aviso sem vítimas. A história da segurança ensina que os avisos ignorados costumam repetir-se, e da segunda vez raramente saem baratos.
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