Sábado – Pense por si

João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
10 de outubro de 2026 às 08:00

Tudo o que os americanos detestam

De Gaulle era senhor de uma visão ampla, por muito equivocada que fosse, das grandes linhas de força da política internacional do seu tempo.

Um primeiro-ministro canadiano foi, pela primeira vez, a Saint-Pierre-et-Miquelon, território ultramarino francês do Atlântico Norte, a pouco mais de 20 quilómetros da Terra Nova, no final de Setembro.

O encontro entre Mark Carney e Emmanuel Macron, na cidade de Saint-Pierre, tudo teve a ver a reivindicação de soberania nacional.

Franceses e canadianos reencenaram explicitamente o desafio a Washington protagonizado por Charles de Gaulle e o sucesso dos filmes sobre o general num Verão de canícula em França não deverá ter andado longe ao servir de inspiração.

Macron e Carney bem sabiam o que fora «Honra e Pátria», a emissão da BBC da «França Livre», e o seu indicativo: o assobio do «Chant des Partisans».

Reconheciam quanto valia o mito em torno de uma história que Trump nunca entenderia.

Estavam, pois, longe de ignorar que, no final de 1941, Franklin Roosevelt pretendia preservar um entendimento com o regime de Vichy do general Philippe Pétain, saído do armistício de 22 de Junho de 1940 e subordinado aos ditames alemães após a triunfal campanha militar nazi.

Hitler declarara guerra aos Estados Unidos a 11 de Dezembro, quatro dias após o ataque do Japão a Pearl Harbour, no Hawai, e o cenário também se alterara na Europa com a mobilização norte-americana e a resistência desesperada do regime soviético à invasão desencadeada pelos seus antigos aliados nazis a 22 de Junho.

A França de Pétain, entretanto, abstivera-se de acções ofensivas contra os adversários de Berlim nas colónias e territórios que controlava no Magrebe, na África Ocidental, passando, ainda, pelo Madagáscar, o Levante e Indochina.

De Gaulle partira para Londres a 17 de Junho 1940 para, com apoio do governo de Winston Churchill, opor-se à rendição de Pétain e lançar um apelo através da BBC à «continuação da luta».

O escasso impacto do apelo radiofónico de 18 de Junho, as dificuldades em congregar apoios políticos e militares, a dependência face à Grã-Bretanha, limitaram as opções do general que aspirava, acima de tudo, a salvaguardar a ideia de uma França imorredoira e combatente.

Brazzaville no Congo, era, então, no final de 1941, a capital das demais colónias africanas alinhadas com a «França Livre»: Chade, a actual República Centro-Africana, Gabão e Camarões.

Aproveitando a conjuntura, o autoproclamado líder da «França Livre», em nome da soberania da Terceira República, ordenou às forças militares que lhe eram fiéis a invasão do arquipélago de Saint-Pierre-et-Miquelon a 24 de Dezembro de 1941.

A ocupação das ilhas por três corvetas e um submarino ao dispor do vice-almirante Émile Muselier– à revelia de Washington e do primeiro-ministro do Canadá (à época um Domínio britânico autónomo), o liberal William King, mas com apoio de Churchill – inquinou irremediavelmente a relação do líder da «França Livre» com Roosevelt.

O episódio é um dos momentos-chave no díptico «A Batalha de Gaulle», realizado por Antonin Baudry.

Os filmes concentram-se no período que vai de Maio de 1940 – da batalha de Montcornet, no nordeste francês, quando os blindados do coronel de Gaulle repeliram fugazmente o avanço alemão – às celebrações lideradas pelo Presidente do Governo Provisório e o primeiro-ministro britânico a 11 de Novembro de 1944, Dia do Armistício em Paris.

Baudry, que em 2019 realizara a sua primeira longa-metragem – «O Canto do Lobo», filme de acção sobre a ameaça de conflito nuclear –, contou com um orçamento de 74 milhões de euros para um filme histórico de recorte clássico.

Ao contrário, por exemplo, do «De Gaulle» (2020) de Gabriel Le Bomin – uma evocação do drama da fuga pela França de Ivonne de Gaulle e dos filhos Philippe, Élisabeth e Anne (nascida com síndrome de Down), aquando da invasão a 10 de Maio até o reencontrar familiar em Londres a 19 de Junho de 1940 –, os filmes de Baudry são uma grande produção épica, apologética e nacionalista.

A colaboração do inglês Julian Jackson – autor da biografia de referência «De Gaulle: Uma certa ideia de França» (2018) – assegurou ao díptico um rigor histórico assinalável que não exclui a inventiva inerente a uma recriação.

A personagem Blazej ou Blaise (interpretada por Karim Leklou), um Sancho Pança e canalizador polaco – irónica alusão aos receios de invasão de mão-obra-barata com a entrada de dez estados na União Europeia em 2004 –, surge a reforçar o isolamento do general à chegada a Londres, ilidindo, contudo, toda uma longa história de contactos entre de Gaulle, políticos e militares britânicos.

Já a imaginária Livia (Anamaria Vartolomei) personifica o heroísmo de grandes mulheres da Resistência como Geneviève de Gaulle-Anthonioz, Germaine Tillion, Mélinée Manouchian ou Lucie Aubrac.

Livia, a clandestina do «exército das sombras», é inicialmente a estudante que dá, ainda, um toque romântico ao destino de Fernand de La Chapelle, fuzilado aos 20 anos, em Dezembro de 1942, após ter assassinado, em Argel, o almirante François Darlan, vice-presidente do regime de Vichy que aceitara colaborar com os norte-americanos após o desembarque aliado no Magrebe no mês anterior.

O enaltecer dos feitos de armas em encenação grandiosa vislumbra-se na recriação da batalha do general Pierre Kœnig e seus homens em Bir Hakeim, no deserto líbio, em Maio-Junho de 1942, e, menos de um ano depois, o arrojo suicidário de Philippe Leclerc em Ksar Ghilane, na Tunísia.

Em contraponto, o fracasso do ataque naval a Dacar, em Setembro de 1940, é simbolizado, sobretudo, pelo momento de agonia do general de Gaulle presente para ver falhar uma operação em que a «França Livre» combatia, pela primeira vez, as forças de Vichy.

A veracidade artística coincide com algo de naturalismo documental na efabulação de diferendos políticos decisivos: a convulsiva relação com Churchill, a acrimónia mútua com Roosevelt, o confronto com Henri Giraud entre 1943 e 1945 pela liderança do «Comité de Libertação Nacional», o primeiro governo no exílio.

É raro que um actor consiga roçar a imagem de um mito, mas Simon Abkarian é convincente ao transfigurar-se em de Gaulle e o Leclerc de Niels Schneider está ao mesmo nível o que afiança estes filmes como epítome da epopeia francesa.

O cunho nacionalista, particularmente acentuado na segunda parte, varre tudo do horizonte: nada quanto a Stalin, Mussolini ou japoneses.

O enredo centra-se a partir daí em de Gaulle, Leclerc e Jean Moulin, o mártir, fundador e líder do «Conselho Nacional da Resistência», morto em Julho de 1943.

A exaltação da França cristã, fundada para a eternidade pelo baptismo do rei Clóvis no final do século V, tornava de Gaulle num homem bizarro na sobranceria e culto da honra, aparentemente em contraste com a sua argúcia táctica, e obscurecia outra característica essencial nesses anos da guerra.

De Gaulle era senhor de uma visão ampla, por muito equivocada que fosse, das grandes linhas de força da política internacional do seu tempo.

A doutrina de Gaulle é a prevalência dos interesses de estados-nação capazes de integrar grandes impérios pluricontinentais e uma política de alianças que fortaleça a autonomia ante as grandes potências emergentes da guerra, em especial, frente às pretensões hegemónicas dos Estados Unidos.

Uma frase condensa este de Gaulle: «Incarno tudo o que os americanos detestam; sou fraco e faço-lhes frente».

Destes filmes fica, também, uma fala de Leclerc, justa e verdadeira, sobre o dever de agir de modo que as futuras gerações se orgulhem de nós.

Pena é que outras gerações de franceses não orgulhem os melhores dos seus antepassados.

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