Considera que correm o risco de se tornar uma mercadoria.
O neurocientista norte-americano e francês, e professor de negócios, Moran Cerf defende, em entrevista à Lusa, que é preciso regulação para os implantes cerebrais, que correm o risco de se tornar uma mercadoria.
O neurocientista Moran Cerf AP
"A minha maior conquista como neurocientista é que fomos pioneiros num método que agora está a tornar-se cada vez mais popular e comercial: abrir o cérebro das pessoas e implantar um dispositivo neural para descodificar os seus pensamentos", sublinha o responsável em entrevista à Lusa por videoconferência a partir de Nova Iorque.
"Fizemos isso com pacientes que tinham um distúrbio cerebral que exigia uma solução e essa foi a maneira de resolver o problema: colocar algo dentro do cérebro deles, entender como o problema funciona e corrigi-lo", contextualiza o neurocientista, conhecido pelo seu trabalho no cruzamento entre o cérebro humano, a tecnologia e a tomada de decisão, e um dos oradores do TEDxPorto 2026.
Agora, "há pessoas que adotaram essa abordagem e a transformaram em empresas e soluções que estão a tornar-se comerciais", adverte.
Ou seja, estão a construir empresas onde "se implanta um dispositivo neural e se dá às pessoas muito controlo sobre seus pensamentos", mas estas ficam em circuito fechado, em vez de falar com o ambiente, em que vão buscar a informação à 'cloud' [onde a informação está armazenada]. O 'chip' conecta-se à 'cloud' para consultar a informação e a resposta volta ao 'chip' e para cérebro, numa explicação simplificada.
"O lado negativo disso" é que o processo "de consulta à 'cloud' sobre quando foi a Revolução Francesa [por exemplo]" pode ser 'hackeado' [alvo de um ataque informático] ou até mesmo alvo de um leilão", diz.
Noutro cenário, "alguém invadiria o sistema e colocaria informações no seu cérebro", indicando dados errados, exemplifica.
"O pior cenário, acho, é que se torne apenas uma 'commodity' [mercadoria]", em que numa ida a um determinado sítio alguém é sugestionado (manipulado) a parar numa loja para fazer compras que não pediu ou para fazer uma refeição, por exemplo.
A pessoa "não sabe que não foi um desejo seu, foi uma disputa entre duas empresas pelos seus desejos", aponta.
"Acho que o pior cenário é que nosso cérebro se torne mais uma ferramenta que as empresas comecem a usar para manipular nossos corpos e nossos bolsos, levando a tudo o que desejam", adverte Moran Cerf.
Para o neurocientista, é preciso regulação mais ágil.
"Precisamos tanto de uma regulação abrangente, que seja de grande alcance, algo que diga, por exemplo, que a pessoa não pode fazer coisas ruins nessa categoria, não importa o quê (...) e também de comités de políticos que respondam super rápido diariamente ou todas as semanas", o "mesmo para as empresas de tecnologia IA que lançam produtos a cada dois dias", sublinha.
"Assume-se que devemos adotar toda tecnologia que nos é apresentada e acho que podemos dizer não" tal como o que aconteceu com a energia nuclear: "Vimos. Até a usamos. Percebemos que é terrível para nós e decidimos coletivamente contê-la".
Neste momento, "o mundo inteiro tem a clareza de que o nuclear não está a ser usado, mesmo quando as piores guerras acontecem na Ucrânia ou no Irão", enfatiza.
Para o neurocientista, tal também poderá acontecer com as tecnologias.
"Podemos dizer que não implantamos dispositivos neurais no cérebro das pessoas, mesmo que isso as faça lembrar de todos os factos que desejam e saber como chegar a qualquer lugar e eu estou aqui para, pelo menos, apresentar os aspetos negativos", salienta.
Obviamente que quando empresários como Elon Musk vendem a ideia de implantes neurais como forma das pessoas ficarem mais inteligentes ou ricas, é mais difícil às pessoas dizerem não, diz.
"Acho que cria muitas oportunidades para quem consegue e (...) aumenta a desigualdade para quem não consegue", remata.
Atualmente, nos EUA existem 40.000 pessoas com um implante neural por questões clínicas.
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