Covid-19: Doença teve impacto maior na Europa porque gripe "foi muito ligeira" em 2019

Lusa 27 de setembro de 2020
As mais lidas

"Muitos idosos que teriam morrido de gripe em 2019 não morreram e, portanto, havia um 'pool' de gente vulnerável maior do que era habitual", acredita Jaime Nina.

O infeciologista Jaime Nina explicou hoje que a covid-19 teve um impacto maior do que seria de esperar na Europa e na América do Norte porque a gripe em 2019 "foi muito ligeira".

Mariline Alves

"Muitos idosos que teriam morrido de gripe em 2019 não morreram e, portanto, havia um 'pool' de gente vulnerável maior do que era habitual e que apanhou com a covid", disse em entrevista à agência Lusa o professor na Universidade Nova de Lisboa, no Instituto de Higiene e Medicina Tropical e da Faculdade de Ciências Médicas.

Questionado se a segunda "onda" da doença pode ser pior do que a primeira, Jaime Nina afirmou perentoriamente: "sem dúvida nenhuma".

"Até porque há um motivo: neste momento, não é possível fazer um confinamento drástico como foi feito em março e abril, porque se fizermos isso a seguir vamos todos de chapéu na mão pedir esmola porque o país faliu. Isto tem custos brutais", salientou o infeciologista do Hospital Egas Moniz.

Sobre o risco de se chegar ao número de óbitos registados em abril, com dias com mais de 30 mortes, Jaime Nina disse que "ficaria aliviado se o número de mortos for 35 por dia", mas "pode ser muito mais".

Já se percebeu que os jovens têm uma doença benigna e nas crianças "só por acaso se encontra um positivo", por isso deve-se "proteger os idosos" como está escrito no Plano Outono Inverno 2020/21 da Direção-Geral da Saúde.

"Os idosos deviam ser postos dentro de uma 'bolha' para os proteger", o que passa pela realização de testes.

Na sua opinião, "os profissionais que estão nos lares de idosos, que vêm da rua e podem levar o vírus lá para dentro, deviam ser testados dia sim, dia não, para apanhá-los e isolá-los" e evitar que o vírus se espalhe na instituição.

"A partir do momento em que o idoso aparecesse infetado, devia começar-se imediatamente a preparar os hospitais para os receber e não esperar que estejam em último estado para os levar para o hospital porque nessa altura não há muito a fazer", defendeu.

Segundo o infeciologista, "até o vírus mais incompetente deste mundo se consegue transmitir" nos lares, porque "os idosos mexem-se mal, muitos deles têm bronquite, estão em salas fechadas horas a fio o olhar para a televisão".

Para Jaime Nina, O Plano de Saúde Outono Inverno tem "muitas coisas boas", nomeadamente o facto de "frisar que o país não se pode dedicar 100% à covid, porque continua a haver ter muitas outras causas de morte".

"Já morreram cerca 1.900 pessoas com covid em Portugal, é verdade, mas neste intervalo de tempo morreram 70 mil de outras coisas", salientou.

Jaime Nina deu um exemplo: "quando se atrasa sete meses uma endoscopia por suspeita de tumor, alguns não o serão, mas seguramente 30 ou 40 são, o que significa que 20 ou 30 já passaram a fase operável neste intervalo e vão morrer de cancro".

"Nas estatísticas não vai aparecer que a causa de morte foi a covid, mas até foi, porque se tivessem feito a endoscopia em tempo útil, tinham sido operados em tempo útil e ficado curados, sustentou.

Outra das propostas do plano é fazer "um grupo interministerial para tentar encontrar soluções fora da saúde", disse, defendendo que "se a diretora-geral da Saúde conseguir isso era uma lança em África".

"Era ter a capacidade de acesso a recursos humanos e técnicos, instalações de várias ordens de grandeza maior que aquela que o Ministério da saúde tem. Isso seria muito, muito bom", vincou.

Para Jaime Nina, "quem escreveu o plano sabe o que está a dizer e o que era preciso fazer. Agora também sabe que tem uma estrutura muito pesada e que é difícil mudar".

Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana
Artigos Relacionados
Investigação
Opinião Ver mais