Aumento de temperaturas pode estar relacionado com atrasos em marcos de desenvolvimento em crianças, revela o estudo da Universidade de Nova Iorque
O calor excessivo pode prejudicar o desenvolvimento infantil, em particular nos primeiros anos de vida, conclui um estudo conduzido por professores da Universidade de Nova Iorque (NYU) e publicado este mês no Journal of Child Psychology and Psychiatry.
Crianças brincam e interagem na Escola Carlos Neto, em AlgésJoão Cortesão
"Ao passo que a exposição ao calor tem sido ligada a indicadores negativos de saúde física e mental ao longo da vida, este estudo indica que o calor excessivo impacta negativamente o desenvolvimento de crianças pequenas em países diversos", disse à universidade Jorge Cuartas, professor assistente de psicologia aplicada na faculdade Steinhart de Cultura, Educação e Desenvolvimento Humano, e o autor principal do estudo.
Os pesquisadores analisaram dados de 19,607 crianças de três e quatro anos da Gâmbia, Geórgia, Madagáscar, Malawi, Palestina, e Serra Leoa – incluindo informações detalhadas do seu desenvolvimento, fatores domésticos e clima –, avaliando-as com base no Índice de Desenvolvimento na Primeira Infância, padronizado internacionalmente para avaliar habilidades fundamentais em crianças desta faixa etária.
O Índice avalia o nível de desenvolvimento das crianças em quatro parâmetros – alfabetização e numeracia, desenvolvimento socioemocional, abordagens de aprendizagem e desenvolvimento físico – e, com base nestes, os investigadores concluíram que crianças expostas a temperaturas médias máximas superiores a 30ºC tiveram mais dificuldades em atingir marcos esperados de desenvolvimento, incluindo entre menos 5% e 6,7% de probabilidade de desenvolver capacidades básicas de leitura e matemática.
Ainda que o impacto não seja imediatamente visível, as consequências podem ser duradouras: é nesta faixa etária que o cérebro se desenvolve mais rapidamente, e a disrupção nesse desenvolvimento pode condicionar toda a aprendizagem futura. "Dado que o desenvolvimento precoce estabelece as bases para a aprendizagem, saúde física e mental e bem-estar vitalícios, estas conclusões devem alertar pesquisadores, decisores e profissionais de saúde para a necessidade urgente de proteger o desenvolvimento infantil num mundo em aquecimento", acrescentou Jorge Cuartas.
O estudo revelou ainda que os impactos das temperaturas elevadas não são iguais para todas as famílias, manifestando-se particularmente entre crianças economicamente vulneráveis, com menos acesso a água potável e que vivem em áreas urbanas, onde o calor costuma ser mais intenso. Os autores incluem também um conjunto de recomendações para mitigar os efeitos nefastos do calor: garantir ambientes frescos, boa hidratação e momentos de descanso, no plano familiar; a nível de políticas públicas, o investimento em educação, infraestrutura urbana, recursos hídricos e adaptação às alterações climáticas.
"É urgente pesquisar mais para identificar os mecanismos que explicam estes efeitos e os fatores que protegem as crianças ou aumentam a sua vulnerabilidade", disse o professor Cuartas, rematando que este trabalho "vai ajudar a identificar objetivos concretos para políticas e intervenções que reforçam a preparação, adaptação e resiliência à medida que as alterações climáticas se intensificam".
Estudo sugere que alterações climáticas prejudicam desenvolvimento infantil
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