Gays, mulheres submissas e SIDA. Os romances de André Ventura

Gays, mulheres submissas e SIDA. Os romances de André Ventura
Marco Alves 25 de fevereiro de 2020

Num dos livros, o deputado retratou Arafat como homossexual e seropositivo. Noutro, o protagonista é toxicodependente, seropositivo, intelectual, ninfomaníaco e vencedor da Volta a Espanha em bicicleta

Uma das facetas mais recôndidas da biografia de André Ventura é a autoria de dois romances publicados a expensas próprias, na Chiado Editora. O primeiro foi lançado em 2008 e chamava-se Montenegro. O segundo, A Última Madrugada do Islão, saiu em 2009, e foi reeditado em 2015. Era já o princípio de uma bibliografia e por isso, numa nota nessa edição, André Ventura falava de si próprio já "enquanto escritor e homem de letras que me considero…"

O primeiro livro, Montenegro, traz uma das personagens mais complexas da literatura portuguesa de sempre. Trata-se de Luís Montenegro - um nome que o autor já explicou ter sido um acaso (Ventura, antigo militante do PSD, não terá reparado que nesse ano havia um deputado do PSD que se chamava Luís Montenegro). Luís Montenegro é um jovem que tem apenas 20 anos e acaba de vencer a Vuelta, ao mesmo tempo que é consumidor de drogas, ninfomaníaco e intelectual, porque domina Pessoa, Sophia, Camus, Brecht, Shakespeare, Dostoiévski, os alemães, o teatro brasileiro do século XIX e a música clássica italiana do século XVII, depois contrai o vírus do HIV, volta a ganhar a Vuelta, a consumir drogas, a ler e a fazer perguntas como "o teu avô foi o líder do Levantamento do Gueto de Varsóvia?" (p. 175)

Este leque de interesses vai sendo desvendado aos poucos ao longo das 239 páginas de Montenegro. Mas há uma quase súmula numa frase da página 158: "Por vezes, enquanto chovia, encostava-se à ampla vidraça da janela da sala, olhando a confusão da vida da cidade, e recitava em voz alta poesia de Fernando Pessoa, de Sophia de Mello Breyner ou mesmo algumas peças de teatro de Shakespeare ou Bertol Brecth [sic]."

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