Vinte e três alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa frequentam uma cadeira com a Operação Nariz Vermelho para desenvolverem "capacidade de responder de forma empática às necessidades humanas e emocionais dos pacientes".
Durante a manhã em que a SÁBADO esteve na sede da Operação Nariz Vermelho, em Lisboa, os alunos do Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa experimentaram várias dinâmicas onde foram desafiados pelo diretor artístico da organização, Fernando Escrich, a darem mais atenção ao outro. Esta é já a segunda edição da cadeira opcional “A Arte do Doutor Palhaço no Contexto da Formação dos Estudantes de Medicina” e contou comum total de 23 alunos.
Os estudantes exploraram a sua linguagem corporal e como esta pode influenciar a relação médico - paciente com diferentes tipos de energia, interesse e foco. Carolina Santocha, uma das estudantes presentes, partilha com a SÁBADO escolheu esta cadeira por ter a oportunidade de aprender “algo que a Faculdade nem sempre consegue dar”: “A empatia, a relação com o doente, conseguirmos comunicar e transparecer para o doente que a terapêutica, mas ao mesmo tempo perceber o que é que ele recebe de nós”.
Inês Rodrigues considera a cadeira “uma lufada de ar fresco”. “Temos vindo a trabalhar diferentes componentes da parte da comunicação, quer seja o ouvir, a perceção do nosso corpo, o estar mais inclinado, o olhar nos olhos, tudo pode ter impacto”, refere a aluna de 20 anos, que considera estas ferramentas essenciais em “situações particularmente vulneráveis” como o anúncio de um diagnóstico: “Estamos a aprender a construir de outra forma a relação médica com o doente, e acho que isso está a ser bastante positivo”.
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Estudantes de Medicina aprendem com Doutores Palhaço: “Uma lufada de ar fresco”
Tiago Proença dos Santos, neurologista pediátrico e regente da cadeira, considera-a essencial para relembrar aos alunos, que vivem “num mundo cada vez mais tecnológico e com muita informação científica”, “a essência de sermos médicos”: “Estamos lá em primeiro lugar para ouvir o doente e compreender o que o faz sofrer”.
Assim sendo, “a abordagem estimula escuta ativa, a perceção do outro como pessoa com emoções e vivências, e a capacidade de responder de forma empática às necessidades humanas e emocionais dos pacientes e dos seus familiares, sobretudo em contextos de vulnerabilidade”, “centrada no paciente” esclarece o professor assistente.
Para isso Fernando Escrich acredita que é bastante importante que os estudantes de Medicina possam “treinar um pouco da linha artística” dos Doutores Palhaços para aprenderem a utilizar essas ferramentas com os seus pacientes, mas também para entenderem o papel do Doutor Palhaço no hospital e facilitarem “a ponte” com as equipas médicas no futuro. “Muitas vezes, se você se sentir olhado dentro do hospital como paciente é um alívio muito grande. Como ouvir o seu nome, você não é apenas um caso no hospital, você tem um nome”, exemplifica. Além disso considera que “é uma forma de passar um pouco a seriedade com que os médicos realizam o seu trabalho”.
Miguel Baltazar/ SÁBADO
Anabela Possidónio, diretora-geral da Operação Nariz Vermelho, afirma que esta parceria com a Universidade de Medicina de Lisboa dá aos alunos “ferramentas para aprenderem a conectar-se com as suas emoções, em primeiro lugar, e com a as emoções do outro, para terem uma relação mais humana com a pessoa doente”.
Tiago Proença dos Santos reforça que toda esta aprendizagem se passa fora do hospital, mas num “espaço protegido para refletir”, “ultrapassando o enfoque exclusivo na doença e incluindo a singularidade da pessoa e das circunstâncias que a acompanham”.
“Devolver o direito a brincar”
Anabela Possidónio reforça que os Doutores Palhaços “têm a missão de levar alegria à criança hospitalizada, mas também aos familiares e aos profissionais de saúde”. Isto porque enquanto “os profissionais de saúde estão lá para tratar da doença, os Doutores Palhaços estão lá para trabalhar com o lado saudável da criança e devolver-lhe o direito a brincar”.
Fernando Escrich explica os Doutores Palhaços “não levam nada pronto para o hospital” e que “é um trabalho muito baseado no improviso”, mas que tem por base “três pilares super importantes: o olhar, a escuta e a perceção”. “A forma de olhar para as pessoas, de escutar, de perceber e de entender a situação ao nosso redor tem de ser cuidado para termos uma relação mais humanizada e uma comunicação que traga uma memória boa da hospitalização e do atendimento de uma pessoa que procura um serviço médico”.
A diretora-geral da Operação Nariz Vermelho desvenda que “os Doutores Palhaços quando chegam ao hospital falam com as enfermeiras para saber o nome das crianças que estão hospitalizadas, saber o estado anímico, como é que elas estão, a nacionalidade, se falam ou não português, para tentar ter o máximo de informação. Com essa informação eles podem ir adaptando o seu encontro com as crianças”.
Miguel Baltazar/ SÁBADO
Doutor ou artista?
A Operação Nariz Vermelho quer profissionalizar a carreira do Doutor Palhaço para conseguir “dominar o mapa de Portugal e chegar a todas as alas pediátricas do Paí”, partilha o diretor artístico. A instituição está neste momento presente em 22 hospitais e Anabela Possidónio refere que no ano passado existiram mais de 67 mil encontros, “sendo que algumas crianças podem receber a vista do Doutor Palhaço mais do que uma vez”.
“Para isso, precisamos de cuidar mais do trabalho artístico que é entregue” pelo qual a Operação Nariz Vermelho começou, este ano, “um processo de formação artística” para aumentar “os artistas externos já formados na linguagem do palhaço hospitalar e que possam ajudar-nos na expansão”. Assim sendo, mensalmente, “abrimos as portas da nossa sala de ensaio para os artistas que queriam experimentar a nossa linguagem”, mas “sem se tratar de uma audição”.
Fernando Escrich esclarece que “um Doutor Palhaço é um artista que escolhe investigar a linguagem do palhaço e, de repente, conheceu um novo mercado de investigação, que é o palhaço do hospital”. O diretor artístico reforça que este trabalho “precisa de muita subtileza e treino” para conseguir cumprir a sua missão: “Levar alegria”.
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