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O neto "influencer" de Fidel Castro que agita Cuba

Pedro Henrique Miranda 07 de agosto de 2025 às 07:00

Através de reels opulentos e provocadores, Sandro Castro põe em causa o legado do avô revolucionário.

Na sua , pode ser visto em grandes festas, ostentando carros de luxo e acompanhado de mulheres bonitas, ou fazendo vídeos humorísticos em torno da sua cerveja preferida, a Cristal. Com impressionantes 127 mil seguidores, poderia tratar-se de mais um influencer cubano, não fosse o seu sobrenome Castro - o neto de Fidel Castro, símbolo maior da revolução comunista cubana.
Sandro Castro gera debate em Cuba com estilo de vida opulento e vídeos controversos Instagram
Com uma vida evidentemente mais abastada do que a maioria da população cubana - cujo salário médio se fixa hoje em torno do equivalente a €150 mensais - Sandro Castro parece fazer pouco das dificuldades que o país enfrenta, publicando vídeos em que ridiculariza o recente apagão por que passou Cuba com uma música de Bad Bunny, ou bebe cerveja de um tanque que faz de piscina, dizendo que está a desfrutar da sua "receita preferida, frango com cerveja... e não há frango". Os seus reels têm frequentemente um tom ridículo, cínico, niilista ou pelo menos pouco sério, mesmo quando tem um discurso mais sóbrio - como quando se veste de padre para advogar a paz mundial, segurando numa pomba, ou defende os imigrantes segurando numa bandeira de Cuba e outra do México, o seu tronco nu inscrito com as palavras "Força América Latina", num cenário que mais facilmente se adequaria a videoclipe de hip-hop. A sua opulência, no entanto, é bastante real, como se vê pelo Mercedes-Benz que conduz, as festas de iate que ostenta ou o seu negócio, o EFE, um bar-discoteca cujas entradas chegam aos 1.000 pesos cubanos - quase metade do atual salário mínimo no país. Nos vídeos mais recentes, divulga as danças virais criadas em torno da sua estreia na música, La Cristach - um tema de reparte feito em parceria com Los Hijos de Obbatalla sobre a cerveja Cristal. Num tom igualmente humorístico, os seus seguidores aclamam-no como "próximo presidente" nas caixas de comentários, mas as atitudes de Sandro - que, pelo seu nome de família, é particularmente escrutinado em Cuba - têm gerado verdadeiro debate num país assolado pela pobreza, escassez de alimentos e o maior êxodo de população desde o período da revolução.
Segundo reporta o El País, há quem o encare hoje como a "cara desfigurada do Castrismo", mais de 70 anos decorridos do início da revolução, o "produto do curso natural do projeto social falhado" de Cuba, e até "a fagulha que desencadeará a mudança" no regime. Por outro lado, vozes alinhadas com o regime clamam que Sandro "não respeita a memória" de Fidel, e que as suas atitudes vão "contra a segurança" do país e "os ideais da revolução". Há também reações mais desapaixonadas: o escritor cubano Ernesto Limia afirmou, através do Facebook, que "Sandro não é o ‘inimigo’ da revolução cubana, embora por causa do seu sobrenome cause dano. Sandro é um imbecil". Já Manuel Cuesta Morúa, ativista e dissidente do regime cubano, argumenta que a sua atitude reflete "a distância da geração dos netos em relação ao projeto original da revolução". Seja como for, a importância do seu fenómeno não é minimizado. Filho de Rebecca Arteago e Alexis Castro Sotto del Valle, um dos cinco filhos de Fidel, Sandro, de 33 anos, nasceu quando Castro ainda exercia pleno controlo sobre o regime cubano, numa altura em que perdia o apoio da URSS (que se desintegrava) e anunciava os tempos difíceis que se avizinhavam para Cuba - contando, para isso, com discrição máxima sobre a vida privada da sua própria família. Durante a sua vida, pouco se soube sobre o que se passava em Punto Cero, o complexo residencial nos arredores de Havana onde habitava a família Castro, e onde cresceu e ainda vive Sandro. Embora se especulasse que Fidel vivesse desafogadamente dentro de paredes, o ditador sempre se esforçou por passar uma imagem de humildade, dizendo que vivia com 900 pesos por mês (o equivalente a €32 no câmbio atual), conduzindo um velho Mercedes-Benz dos anos 80 e sendo visto com buracos nas solas das botas. As gerações seguintes da família Castro, no entanto, viviam de forma marcadamente distinta, sendo anhados a desfrutar de luxos reservados aos mais abastados: o filho de Fidel, Antonio Castro, a velejar em iates ao longo da costa de Mykonos; a sua sobrinha, Mariela Castro, a comer lagosta em restaurantes de luxo e com malas da Louis Vuitton: e outro dos seus netos, Raúl Guillermo, dando festas exuberantes em mansões alugadas.  Por sua parte, Sandro, que parece ridicularizar a sua própria afluência, é um dos primeiros a exibi-la abertamente, e o primeiro a fazer da troça da opulência da família Castro uma audiência de dezenas de milhares na internet - motivo pelo qual, nas palavras do professor de História cubana Sérgio López Rivero, "no contexto da crise económica atual", o comportamento de Sandro pareça "ainda mais prejudicial ao regime fundado pelo seu avô".
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