Da Antiguidade à Guerra Mundial: mudança de hora atravessou séculos mas abolição continua na gaveta
Hora volta a mudar este fim de semana e a história sugere que esta ideia veio para ficar. Países da UE já tentaram abolir a medida, tendo em conta os impactos que tem na saúde, mas não havendo unanimidade a proposta mantem-se na gaveta.
A primeira vez que se registou uma mudança de horário foi há milhares de anos: as civilizações antigas queriam ganhar um pouco mais de tempo de dia durante a época da primavera e verão para que as horas de sol fossem maiores. Depois disso, ocorreu oficialmente durante a Primeira Guerra Mundial, em junho de 1916, com o objetivo de poupar energia, isto porque esta estratégia permitiria reduzir a iluminação artificial. Quando a guerra terminou, a maioria dos países abandonou a medida, mas muitos mantiveram-na e acabaram por seguir esta tradição, como foi o caso de Portugal.
A medida só se tornou obrigatória para alguns países em 2001, quando surgiu uma diretiva da União Europeia, e como parte desta medida o horário vai voltar a mudar já este fim de semana: Portugal vai entrar no horário de verão na madrugada do dia 28 para 29 de março. À 1h da manhã os relógios avançam e o relógio passa a marcar as 2h.
A maioria dos países africanos, por exemplo, nunca chegou a aderir a esta mudança horária e o mesmo aconteceu com países da Ásia, América do Sul, América Central ou Oceania. Outros países chegaram a aderir mas abandonaram a ideia a meio: foi o caso, por exemplo, da Rússia, que em 2014 passou a adotar apenas o horário de inverno, ou o Japão, que já depois do pós-guerra nunca adotou o horário de verão.
Na Europa, a hipótese foi abordada pela primeira vez a 12 de setembro de 2018 sob o pretexto de que uma consulta popular indicou que mais de 80% dos participantes apoia esta ideia. No ano seguinte, o Parlamento Europeu aprovou até esta posição. Acontece que, desde então, esta hipótese permanece guardada na gaveta por falta de consenso entre os Estados-membros e a hora continua a mudar duas vezes por ano. A Comissão Europeia ponderou até retirar a proposta.
Países como Espanha, Finlândia, Polónia ou Alemanha sempre defenderam o fim desta rotatividade e apelaram a um horário fixo. O primeiro-ministro espanhol foi até uma das figuras mais vocais sobre este tema e em outubro de 2025 voltou a propor à União Europeia o fim definitivo da mudança de hora na Europa.
Por que a medida não avança?
Para que o processo avance é preciso que o Conselho da União Europeia volte a pôr este assunto em cima da mesa e tente chegar a um consenso - tarefa esta que cabe neste momento ao Chipre, país que neste momento assume a presidência rotativa da instituição desde junho. Questionada se tenciona alcançar um consenso sobre esta questão até junho, uma porta-voz da presidência cipriota afirmou que a Comissão Europeia está "atualmente a preparar um estudo relacionado sobre esta proposta legislativa".
O impacto da mudança de horário
O médico especialista em sono, Tiago Sá, com quem a SÁBADO chegou a falar, sustentou a ideia de um horário fixo com o facto desta mudança horária "aumentar os enfartes, os AVCs e até os acidentes de viação em 6%", isto porque, explica, "dormimos menos". Além disso, frisou que "a privação aguda de sono leva ao aumento da irritabilidade, do risco cardiovascular e da dificuldade de concentração".
Masaaki Miyazawa, imunologista e diretor da Escola de Ciências Médicas da Universidade de Kindai, adicionou ainda: "Sabemos que a alteração horária frequente, aumenta a incidência de cancro do pulmão em modelo animal através destes mecanismos". E acrescentou que estas transições podem afetar, pelo menos de forma temporária, o sistema imunitário com compromissos diversos na saúde.
Outros especialistas recordam também que a mudança de horário pode perturbar o sono, a produção de hormonas e o humor. “A maioria das pessoas consegue ajustar-se e adaptar-se no espaço de uma semana, mas sabemos também que há quem tenha dificuldade em acertar o relógio interno e possa demorar semanas, se não meses, até o relógio biológico se adaptar a uma simples alteração de uma hora”, explicou à Euronews Health Jeffrey Kelu, investigador especialista em ritmos circadianos no King's College London.
Alguns estudos apontaram também que a fixação de um horário poderia levar a poupanças na energia, contudo, sabe-se agora que essas poupanças seriam muito pequenas ou até mesmo praticamente nulas.
Inverno ou verão: que horário escolher?
Em caso de fixação de horário, cientistas e especialistas sugerem que se mantenha a hora padrão, a hora de inverno.
"Os médicos consideram que o horário de inverno é o mais favorável, apesar de que quando perguntamos à população as pessoas tendem a preferir o horário de verão, especialmente devido ao número de horas de sol", diz Tiago Sá.
O especialista recorda, contudo, que "o horário de verão não significa que existam mais horas de sol".
Dicas para se adaptar
Para amenizar os impactos da alteração da hora no sono, Tiago Sá aconselha a "nos dias antes, tentar adiantar ligeiramente a hora em que nos deitamos para tentar compensar a perda futura" do sono. Além disso, diz também que no sábado é "importante tentar reduzir a exposição luminosa nas últimas horas do dia e reduzir o consumo de café e açúcar, para que consigamos adormecer mais cedo".
A estas dicas, a DecoPROteste acrescenta a ideia de passar mais tempo ao ar livre, principalmente nas manhãs que se seguem à mudança de hora. Em declarações ao Correio da Manhã, a neumologista e especialista em medicina do sono Vânia Caldeira sugere também fazer uma sesta até 20 minutos para recuperar o tempo de sono perdido.
Siga-nos no WhatsApp.