A Procuradoria-Geral da República na Zambézia já instaurou 19 processos-crime pelos por disseminação de "boatos sobre atrofiamento de órgãos genitais masculinos", após toque ou saudação, que depois acabam em casos de linchamento popular.
Quatro pessoas foram brutalmente agredidas por populares em Chibuto, sul de Moçambique, que ainda se amotinaram na esquadra policial, em novo caso relacionado com boatos de atrofiamento de órgãos genitais masculinos, que já soma 61 mortos.
As superstições tiveram início na província de Cabo Delgado, tendo-se posteriormente espalhado para outras regiões e para as redes sociais.Lusa
A situação desencadeou-se na sexta-feira, na localidade de Malehice, e envolveu agressões da população a três pescadores e a um funcionário público que, segundo relatos locais, saudaram seis alunos que posteriormente se queixaram de atrofia dos órgãos genitais.
Perícias realizadas entretanto aos queixosos não encontraram qualquer anomalia, contrariamente ao relatado pela população, após as agressões brutais às quatro pessoas, que se refugiaram na esquadra policial de Malehice, distrito de Chibuto, província de Gaza.
Mais de uma centena de pessoas amotinaram-se no exterior e, segundo relatos locais, tentaram invadir a esquadra, obrigando à intervenção policial.
As quatro vítimas foram transportadas para uma unidade de saúde, três com ferimentos graves.
A Procuradoria-Geral da República na Zambézia, centro de Moçambique, divulgou este sábado que desde 27 de abril já instaurou 19 processos-crime pelos mesmos motivos, de disseminação de "boatos sobre atrofiamento de órgãos genitais masculinos", após toque ou saudação, que depois acabam em casos de linchamento popular.
"Resultaram em graves perturbação da ordem pública", explicou fonte da PGR naquela província, admitindo que oito arguidos foram já detidos, tendo sido emitidos vários mandados de captura. Um dos detidos foi mesmo condenado a uma pena de 30 dias de prisão em julgamento sumário, pelo espalhar boatos sobre atrofiamento de órgãos genitais.
O Presidente moçambicano classificou na quinta-feira como boatos e mentiras as superstições sobre alegados desaparecimentos de órgãos genitais, associadas a violência que causou cerca de 60 mortos no país, sublinhando que não há registo de qualquer caso clínico.
"Estamos à procura de uma pessoa só como prova de ter desaparecido os seus órgãos sexuais ou ter-se atrofiado como resultado de alguém o ter cumprimentado ou (...) tocado. Não existe", declarou o chefe de Estado, na província de Tete.
Garantiu que desde o surgimento, em 18 de abril, das superstições sobre o alegado atrofiamento, encolhimento ou desaparecimento de órgãos genitais após o toque de outra pessoa, as autoridades de saúde não registaram até ao momento qualquer caso confirmado de vítimas.
As superstições tiveram início na província de Cabo Delgado, tendo-se posteriormente espalhado para outras regiões e para as redes sociais.
"É tudo boato, é tudo mentira e as pessoas estão a agredir outras pessoas, estão a linchar pessoas, estão a matar pessoas com base no boato e não constitui nenhuma verdade", frisou Chapo.
Especialistas moçambicanos defenderam, em declarações à Lusa, uma análise do contexto social que alimenta as superstições, procurando identificar a "quem convêm" mitos que nascem da "histeria social".
"São doenças que nascem da histeria social, ou seja, tudo que eu desconheço, levo a questão do sobrenatural para a coisa. Numa perspetiva antropológica é preciso entender em que contexto surge, quais são os atores envolvidos e a quem convém que isso continue dessa forma", disse à Lusa o antropólogo moçambicano Alberto Chimoio.
Segundo o académico, é necessário estudar os grupos sociais envolvidos nessa superstição e perceber o contexto.
Já o sociólogo Roque Tembo salientou a importância de compreender o fenómeno numa perspetiva histórica, sublinhando que, antes das atuais crenças sobre o alegado desaparecimento de órgãos genitais, já se tinham registado outras manifestações semelhantes.
Defendeu que a solução também passa por voltar à raiz do problema e "entender primeiro os valores culturais, a própria sociedade, a cultura no seu todo da população e acompanhar a dinâmica social".
Especialistas de saúde reiteram que os rumores não têm base científica, sendo os casos associados a stress, medo e perceções erradas.
Quatro pessoas agredidas em novo caso de boato de atrofiamento de órgãos genitais em Moçambique
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