Olimpismo chega a Portugal via rei D. Carlos e tem "marco" em Carlos Lopes

Lusa 04 de abril
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Carlos Lopes venceu a maratona de Los Angeles 1984, mas antes de chegar à primeira medalha de ouro foi preciso o rei D. Carlos I visitar Paris.

O movimento olímpico, e a evolução do desporto na sociedade, chega a Portugal pela mão do rei D. Carlos e vive "um marco importante" com o ouro de Carlos Lopes em Los Angeles1984.

Carlos Lopes, o herói de ouro em Los Angeles. Campeão Olímpico em 1984
Carlos Lopes, o herói de ouro em Los Angeles. Campeão Olímpico em 1984
Com 24 medalhas, o pecúlio português em Jogos Olímpicos poderá ser modesto, quando comparado com algumas das 'potências' desportivas mundiais, mas foi sendo construído sob uma aceitação do desporto progressiva no país.

Para uma abertura definitiva de mentalidades contribuiu o primeiro ouro, que Carlos Lopes logrou na maratona de Los Angeles1984, mas antes de chegar à primeira de quatro vezes que o hino nacional tocou no maior palco desportivo do mundo foi preciso o rei D. Carlos I visitar Paris.

"O movimento olímpico começa a ser falado em Portugal em 1905, 1906, através do rei D. Carlos. É quando o rei faz uma viagem a Paris em que conhece Pierre de Coubertin. Nas suas conversas, entre jantaradas e a caça, o desporto que fazia, [Coubertin] acaba provavelmente por falar deste sonho de ter constituído os Jogos e da importância de o alargar a mais países", conta à Lusa Rita Nunes, investigadora especializada em olimpismo.

É então o próprio rei que nomeia António Lancastre, médico, para representar Portugal junto do Comité Olímpico Internacional, e mais tarde, em 1909, é formada a Sociedade Promotora de Educação Física Nacional.

Três anos depois, surge o Comité Olímpico Português, hoje Comité Olímpico de Portugal (COP), e é nesse mesmo ano que Portugal se estreia, enviando uma delegação de seis atletas a Estocolmo.

"A nossa delegação é pequenina, com uma série de peripécias para conseguir dinheiro para custear essa viagem, e é nessa participação que morre o Francisco Lázaro", recorda a investigadora.

Armando Cortesão, António Strom, Francisco Lázaro, Joaquim Vital, António Pereira e Fernando Correia são os primeiros atletas olímpicos portugueses, mas a História veio a recordar um deles pelas piores razões.

Lázaro, por diversas vezes campeão nacional da maratona, apresenta-se perante temperaturas elevadas, que levaram muitos a desistir, com uma solução que lhe viria a custar a vida na prova, em 14 de julho de 1912.

Besuntou-se com sebo, pelo corpo todo, e acabou por morrer uma vez que esta substância impediu a natural transpiração, por tapar os poros da pele, e acabou por se tornar na primeira pessoa a morrer nos Jogos Olímpicos da Era Moderna, que há 125 anos, em 06 de abril, arrancavam em Atenas.

"É uma estreia um pouco trágica, e há um misto de repercussão em Portugal, que é por um lado a importância do desporto, que vinha a ganhar espaço na sociedade, mas por outro lado há esta morte de um atleta", comenta.

De qualquer das formas, em Portugal, "o desporto ganha espaço na sociedade e começa a desenvolver-se", saindo das grandes elites, e de homens que traziam influências do estrangeiro, para quem usava o pouco tempo livre de que dispunha para praticar.

"Há esse impacto de maior visibilidade, e de ser visto como regeneração e fortalecimento do corpo físico. Não só o desenvolvimento intelectual, mas também o do corpo começou a ser mais valorizado", considera Rita Nunes.

A I Guerra Mundial limita esse avanço, que se torna mais lento, mas o país desenvolvia-se já no futebol e no ciclismo, que o povo abraçava mais do que outras modalidades como a esgrima, o hipismo ou a vela, ainda restritas às elites.

É uma equipa de hipismo que consegue a primeira medalha, um bronze em Paris2024, mas Portugal estava ainda distante de se consagrar no panorama desportivo, até porque as mulheres só passaram a competir em Jogos em Helsínquia1952, meio século depois de serem recebidas no seio olímpico (Paris1900).

"O Carlos Lopes vem dar um impacto muito grande ao desporto, e mostrar que Portugal tem possibilidades de se bater com outras nações e ter também um campeão olímpico. É um dos marcos do desporto em Portugal. Foi-se conquistando espaço, foi-se conquistando outras medalhas, mas nunca tínhamos ouvido o hino nacional", refere Rita Nunes.

Para o presidente da Associação de Atletas Olímpicos de Portugal (AAOP), Luís Alves Monteiro, Carlos Lopes "transformou completamente a visão do desporto em Portugal" ao conseguir o primeiro de quatro ouros olímpicos.

"Foi um marco. Nasceu de geração espontânea, porque não havia estruturas, e ganhou uma medalha de ouro a correr na estrada. [...] A partir do momento em que ganhou a medalha de ouro, transformou a perspetiva do desporto em Portugal", garante, ele que esteve também naqueles Jogos, no pentatlo moderno.

Alves Monteiro lamenta que o maratonista tenha sido "um dos atletas que caíram no esquecimento". "Hoje, nas escolas, se calhar perguntamos quem foi Carlos Lopes e não sabem. Também é função da AAOP garantir que a memória destes atletas perdura", acrescenta.

Quatro anos depois, em Seul1988, voltou a ser a maratona a consagrar um português: Rosa Mota tornou-se na primeira mulher multimedalhada na maratona e a única a ser campeã olímpica, europeia e mundial em título.

Seguiu-se Fernanda Ribeiro em Atlanta1996, nos 10.000 metros, antes de Nelson Évora fazer a saltar o que outros tinham feito a correr, com o ouro no triplo salto de Pequim2008.

Para os Jogos Olímpicos Tóquio2020, adiados para este verão devido à pandemia de covid-19, estão para já apurados 54 atletas lusos que vão querer, a partir de 23 de julho, expandir este lote de 24 medalhas.

A seu favor, uma outra perceção do peso do desporto numa vida saudável, outra aceitação na sociedade e avanços consideráveis em termos de preparação física e infraestruturas, mesmo que o país continue longe das 'elites' desportivas.