Do Kivu a Kasai, a violência espalhou-se pela RD Congo

Lusa 12 de agosto de 2017
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A escalada de massacres na República Democrática do Congo multiplicou-se e estendeu-se ao centro do país. Reportagem da agência Lusa

De Kivu do Norte a Kasai, a violência espalhou-se pela República Democrática (RD) do Congo. Há cinco anos, Kivu apresentava índices alarmantes, mas hoje a escalada de massacres multiplicou-se e estendeu-se ao centro do país.

Em 2012, a província de Kivu do Norte ao leste da RD Congo era palco de intensos conflitos entre o grupo rebelde de origem tutsi M23 e as forças armadas congolesas e milícias comunitárias de autodefesa, os Mai-Mai.

Naquele momento, o alto nível de violência desalojou 900 mil pessoas que tiveram que fugir das suas casas. Cerca de 20.000 - incluindo 600 soldados das forças armadas (FARDC) - escaparam para os vizinhos Ruanda e Uganda.

A Novembro daquele ano, o M23 invadiu Goma, a capital provincial com um milhão de habitantes. Ali foi o auge do embate directo entre os rebeldes de origem tutsi contra as FARDC e os Mai-Mai.

O sequestro e o recrutamento forçado de crianças para integrarem as fileiras dos grupos armados era uma realidade e o destino quase certo para as famílias que viviam nas vilas do interior.

Jeannot Kasereka, 18 anos, lembra bem do dia em que o M23 tomou conta de Rutshuru, a 70 quilómetros ao norte de Goma. Enquanto trabalhava num pequeno quiosque a vender alimentos viu toda a acção nas ruas.

"Eu tinha 14 anos, quando os vi na cidade, sabia que nos iriam apanhar à força. Eles procuravam rapazes para os obrigar a lutar com eles. Decidi então me juntar a um grupo Mai-Mai para combater o M23", relembrou.

Viveu durante três anos na floresta, perto do Parque Nacional Virunga, a lutar pela milícia liderada pelo chefe Shetani Muhima.

"Quando me juntei ao Mai-Mai Shetani, a vida era tão difícil, eu tinha que roubar e cuidar das armas. Resolvi partir quando soube que o M23 havia caído. Vi que não precisava mais continuar a lutar", disse.

O M23 foi desmantelado em Novembro de 2013. Desde que escapou, em conjunto com outras 60 crianças, a vida mudou. Kasereka abriu um pequeno negócio em Kiwanja. Num espaço minúsculo, montou um cabeleireiro e oferece cortes masculinos e femininos. Hoje, tenta esquecer-se dos dias de guerra. Dono de sua vida, ele tem seus próprios instrumentos de trabalho e seus clientes cativos.

Bem longe de Kivu do Norte, a mais de 1.500km, a região de Kasai no centro do país vive actualmente uma forte escalada da violência, uma realidade brutal que parece multiplicar-se com frequência no país.

Os números são tão alarmantes como os que se verificaram na província de Kivu do Norte, há cinco anos. Mais de três mil pessoas foram mortas desde Outubro de 2016 e 20 povoados destruídos, denunciou em J a Nunciatura Apostólica em Kinshasa.

Dos cerca de 1,3 milhão de deslocados registados pelas Nações Unidas, mais de metade são jovens que foram separados das famílias ou recrutados por milícias.

O fenómeno das crianças soldado continua a perpetuar-se. Segundo Marie Diop, especialista em protecção à criança da UNICEF em Goma, é preciso prevenir o uso de crianças nas frentes de combate.

"As pessoas devem entender que crianças têm direitos e não devem ser utilizadas por grupos e forças armadas. Existe o recrutamento e se uma criança vive numa comunidade onde há conflito, é, muitas vezes, usada como carregadora ou como um espião", disse.

A Agência da ONU para os Refugiados (Acnur) indicou que 475 mil congoleses fugiram para países vizinhos, dos quais mais de 30.000 buscaram refúgio em Angola, na província da Lunda Norte.

Na origem da crise em Kasai estão as milícias de Kamwina Nsapu. Desde meados do ano passado, esta região central do país é foco de crescente de insatisfação.

O ponto de partida foi a morte do líder local Kamuina Nsapu pelas FARDC, provocando a revolta entre os seus apoiantes.

O Governo local nomeado em maio pelo presidente Joseph Kabila tem como missão organizar o ato eleitoral que se deveria realizar este ano.

As presidenciais, que deveriam ter ocorrido em 2016, foram adiadas por Kabila, porque a sua pretensão de ir a votos (algo que a Constituição não permite) foi recebida com manifestações da sociedade civil, violentamente reprimidas. Só no mês de maio, 8 mil pessoas por dia se viram obrigadas a fugir.
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