Porto ou como derrotar Ventura

Porto ou como derrotar Ventura
Margarida Davim 27 de janeiro

André Ventura teve no Porto o seu pior resultado nestas eleições presidenciais. Não só ficou em terceiro lugar como teve quase metade dos votos de Ana Gomes. Mas o que é que explica esta rejeição ao líder do Chega?

A história das presidenciais teria sido muito diferente sem o Porto. Nestas eleições, Ana Gomes ficou em segundo lugar em Lisboa, Porto, Aveiro, Braga, Coimbra, Viana do Castelo, Setúbal e Açores. Mas a votação expressiva que teve no distrito do Porto foi decisiva para impedir que o candidato da extrema-direita pudesse reclamar a prata nesta corrida eleitoral.
 
Foi no Porto que a candidata socialista esmagou o líder do Chega. Gomes teve 116.906 votos: quase o dobro dos 63.194 conseguidos por Ventura. Os motivos da derrota são vários, alguns deles estão relacionados só com esta campanha, mas outros são estruturais e podem vir a travar a subida do Chega a norte.
 
O discurso que não cola no Porto
Quando se pergunta a quem melhor conhece o distrito do Porto o que é que falhou na candidatura de André Ventura há uma resposta recorrente: o discurso contra os ciganos não funciona.
 
"Aqui não há ódio aos ciganos", garante o líder do PSD Matosinhos, Bruno Pereira, explicando que "as minorias estão muito mais bem entrosadas no Porto do que no Alentejo" e que esse não é um tema que colha apoios a norte. "A história dos portugueses de bem e de mal tem que ver com problemas que não são pertinentes no Porto".

Michael Seufert, ex-deputado do CDS e apoiante declarado de Tiago Mayan, nota aliás que o candidato do Iniciativa Liberal ficou à frente nas freguesias de Ramalde e Lordelo, no Porto, "onde há muitos bairros sociais" e o discurso anti-sistema de Ventura parece não ter galvanizado os mais desfavorecidos.
 
Para Seufert, "tipicamente, a norte têm sido mais populares as mensagens mais liberais" e Ventura, apesar de defender um liberalismo de tal forma agressivo que teve no programa o fim do SNS e da escola pública, "não é conhecido pelo seu discurso económico", mas por temas sociais que dizem pouco aos nortenhos. "Não o vejo como uma direita burguesa e empreendedora", comenta o centrista, que viu no debate entre Ventura e Mayan uma posição que pode ter custado votos a norte ao líder do Chega.

"A abordagem à TAP no debate, com André Ventura a dizer que não via problemas com as transferências do Estado para a empresa caiu muito mal no Porto", diz Michael Seufert, que acha que o tema da intervenção estatal na transportadora aérea "marca mais a norte" e pode ter ajudado à rejeição do candidato do Chega.
 
E se houve temas que não caíram bem, também falhou a falta de discurso sobre uma das temáticas mais acarinhadas a norte: a regionalização. A candidatura de Ana Gomes percebeu a potencialidade do assunto e não o largou, puxando pelo regionalismo convicto da candidata.
 
"O tema da regionalização atrai eleitorado a norte", nota à SÁBADO o diretor de campanha de Ana Gomes, Paulo Pedroso, explicando que "não foi por acaso que o tema foi lançado numa entrevista no Porto Canal".
 
De resto, Pedroso considera que a norte Marcelo Rebelo de Sousa "é identificado com o centralismo lisboeta" e, por isso, "a regionalização era o ponto de erosão" de Rebelo de Sousa. Já Ventura, nunca fez da criação de regiões um tema.
 

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