PCTP/MRPP: Os emails secretos e as lutas fatais

O fim da relação entre Arnaldo Matos e Garcia Pereira
Fernando Esteves 22 de fevereiro de 2019

Em privado, Arnaldo Matos, líder histórico do MRPP, humilhou frequentemente Garcia Pereira. Aos enxovalhos sucessivos, o advogado sempre respondeu com reverência e humildade. Afrontar "O Grande Educador da Classe Operária", seu padrinho e mentor, estava fora de causa. Até que decidiu romper de vez.

O fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP) Arnaldo Matos morreu esta sexta-feira de madrugada, aos 79 anos, vítima de doença. Recorde o trabalho publicado pela SÁBADO a 3 de dezembro de 2015 sobre os problemas internos do partido. 

Eram 13h34 de 28 de Julho de 2015 quando Garcia Pereira recebeu um email. Remetente: Arnaldo Matos. O advogado e cabeça-de-lista do MRPP apressou-se a consultar o que o fundador, seu mentor e líder histórico do partido tinha para lhe dizer. Começava assim: "Quando saíste ontem do meu escritório, já pela uma e meia da tarde, pareceu-me ter-te ouvido resmungar entre dentes qualquer coisa como 'cansaço' e 'férias'. O cansaço é legítimo e faz bem à saúde. Porém, se tu e os teus amigos do Comité Central pensam ir de férias antes de constituírem as listas dos 22 círculos eleitorais e de as apresentarem ao País, isso significa ruptura total e definitiva comigo."

O email ameaçador, um de vários trocados entre as duas maiores figuras da história do MRPP (a sigla oficial é maior: PCTP/MRPP, de Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado) a que a SÁBADO teve acesso, prosseguia: "No Comité Central de um partido revolucionário não há lugar a férias; há mas é tarefas políticas a cumprir em nome da classe operária e do povo, nos tempos apropriados." As eleições legislativas estavam próximas e Arnaldo Matos - a maior referência política e intelectual de Garcia Pereira, que lhe prestava uma reverência sem limites - não admitia distracções. Embora não tivesse qualquer cargo no partido, na prática era ele quem exercia o poder total na sombra, como o demonstra o tom utilizado com Garcia Pereira - que, na semana passada, anunciou a saída do partido, em ruptura com Arnaldo Matos -, a quem acusava de pôr as "comodidades reaccionárias pequeno-burguesas à frente dos interesses do Partido", ao planear ir, juntamente com os restantes membros do Comité Central, para férias quando havia trabalho para fazer.

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