Infiltrámo-nos no movimento negacionista

Infiltrámo-nos no movimento negacionista
Alexandre R. Malhado 23 de setembro

Estivemos infiltrados nas redes sociais e fomos a um encontro de negacionistas. Seguimos o percurso profissional e de vida do mais polémico juiz e advogado que é um símbolo, até violento, para grupos como o Habeas Corpus, Defender Portugal e Aliança pela Saúde.

O telemóvel não saía da mão direita de "Ana Desirat". Na noite fria de domingo, dia 19, acampada à frente da Assembleia da República entre os cartazes autárquicos de Suzana Garcia (PSD) e André Ventura (Chega), a mulher de 60 anos não tirava os olhos do ecrã, atenta aos comentários, likes e reações à sua nova fotografia de perfil, onde está a posar de megafone. "Qualquer dia, candidato-me à Presidência da República. E vocês vão ser os meus conselheiros de Estado, até tu Pedro. Olha toma mais vinho, faz bem para berrarmos depois", disse, entusiasmada, de garrafa Vallado tinto na mão, pronta a servir, e de frango assado no prato. O Pedro não se chamava Pedro, nem planeava berrar depois – era eu, Alexandre Malhado, jornalista da SÁBADO, imiscuído na conversa de jantar e nos seus grupos privados de Facebook. Na mesa improvisada e desorganizada, a Covid-19 era o centro da conversa. Falava-se dos centros de vacinação como "matadouros", ignorando o contributo da vacina para a queda de mortalidade (só entre maio e julho foi possível evitar cerca de 700 mortes em Portugal, segundo um estudo do Instituto de Saúde Pública do Porto), e especulava-se como os governos querem usar o "RMA" (queriam dizer mRNA, tecnologia usada nas vacinas Pfizer e Moderna) "para o mal", sem referir como os próprios governantes terem sido inoculados.

"Os portugueses são burros, não vêm para a rua", afirmava Desirat, ainda de olhos fixos no telemóvel, lamentando que o apoio que sente nas redes sociais, nomeadamente na sua nova foto de perfil, não se manifeste nas ações dos movimentos anti-vacinas. Fragmentados e anárquicos, os variados movimentos organizam-se em nichos diferentes, da extrema-direita à New Age, passando por alianças de médicos e homeopatas, que colaboram entre si e lutam pelo protagonismo – porque nas redes sociais conhecem mais rostos do que nomes de grupos.

É por isso que Ana Desirat está orgulhosa: ascendeu ao estatuto de recém-estrela das redes sociais por ter aparecido nas televisões a chamar "assassino" ao vice-almirante Gouveia e Melo, responsável pela task force da vacinação, e "pedófilo" ao presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, no âmbito de uma ação do seu grupo Santo António de Lisboa, que fundou há três meses. Pelo mesmo ataque à segunda figura do Estado, está agora no centro de uma das investigações abertas pelo Ministério Público e pela Unidade de Contraterrorismo da PJ. "Antes eras 'pilota' da TAP, agora pilotas isto. Vais mudar o mundo", disse uma das presentes no jantar, instrutora de yoga, para gáudio de Desirat.

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