Foram condecorados no 10 de Junho e caíram em desgraça

Gustavo Sampaio 10 de junho de 2015

Se fosse agora, voltariam a ser escolhidos? A reputação é uma matéria instável. A SÁBADO relembra uma série de casos de figuras que caíram em desgraça após terem sido galardoadas no Palácio de Belém

2014, Zeinal Bava, Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial
O desmaio do Presidente Cavaco Silva quando discursava nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a 10 de Junho de 2014, terá sido um mau prenúncio, mas ninguém imaginaria então o enorme rombo na credibilidade de Zeinal Bava (um dos condecorados nesse dia) nos meses seguintes, por entre o descalabro da Portugal Telecom (PT). Na Guarda, Bava recebeu do chefe de Estado a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial (Classe do Mérito Comercial). "É o reconhecimento de mérito do trabalho que todos temos feito na PT, e agora na PT e na Oi, para apoia a economia", declarou o então CEO da empresa. Cerca de oito meses depois, já demissionário da PT e da Oi, Bava sujeitou-se a um exercício de humilhação pessoal na comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do GES, respondendo evasivamente às questões sobre o investimento da PT em dívida do GES que arruinou a empresa de telecomunicações. "Não sei", "não me lembro", "não consigo precisar", repetiu, sendo repreendido por Fernando Negrão, presidente da comissão, e ridicularizado por Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda: "É um bocadinho amadorismo para quem ganhou tantos prémios de melhor CEO do ano e melhor CEO da Europa e arredores, não é", lamentou Mortágua. E até Cavaco questionou: "O que é que andaram a fazer os accionistas e os gestores da PT?"

1989, Valentim Loureiro, Comendador da Ordem do Mérito
O major apoiou publicamente Mário Soares nas candidaturas do socialista à Presidência da República em 1986 e 1991. Na primeira eleição, isso resultou num castigo de suspensão do seu partido, o PSD, durante dois anos. Pelo meio surgiu a retribuição do Presidente Mário Soares: o grau de Comendador da Ordem do Mérito, em 1989, quando Valentim presidia ao Boavista e à Liga Portuguesa de Futebol Profissional, em simultâneo. Na temporada de 2000/2001, o Boavista sagrou-se campeão nacional - um feito inédito. Nessa altura, Valentim Loureiro já presidia à Câmara Municipal de Gondomar desde 1993, enquanto o filho João Loureiro dirigia o clube portuense. O clã Loureiro estava no auge do seu prestígio. Até que o futebol, a política e as suspeitas de corrupção se misturaram no explosivo processo do "Apito Dourado" (iniciado em 2004), manchando a reputação do major, condenado em 2008 a três anos e dois meses de prisão com pena suspensa, por abuso de poder e prevaricação. O PSD deixou-o cair, mas ainda foi reeleito para a presidência de Gondomar mais duas vezes, em 2005 e 2009, através da lista independente "Gondomar no Coração". Só abandonou a política activa em 2013. Foi derrubado não pelo voto popular, mas pela lei da limitação de mandatos autárquicos.

2007, Hélder Bataglia, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique
O empresário luso-angolano foi condecorado pelo Presidente Cavaco Silva com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em Junho de 2007, devido ao seu contributo para as relações entre Angola e Portugal. Foi precisamente em Angola que Bataglia fundou a Escom, empresa do Grupo Espírito Santo que prestou serviços de consultoria ao German Submarine Consortium, em 2004, no processo de aquisição de dois submarinos pelo Estado português. Bataglia, presidente da Escom, e outros dois administradores da empresa foram constituídos arguidos em 2013, por corrupção activa, tráfico de influências e branqueamento de capitais num processo relativo à compra dos submarinos. A Escom recebeu cerca de 30 milhões de euros pelos serviços de consultoria, distribuídos entre o Conselho de Administração da Escom, o consultor Miguel Horta e Costa e o Conselho Superior do GES. O processo dos submarinos foi arquivado em Dezembro de 2014, sem condenações. Porém, inquirido na comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do GES, em Janeiro de 2015, Bataglia admitiu que ele próprio e os outros beneficiários das comissões pelo negócio dos submarinos não declararam ao Fisco o dinheiro recebido. Criaram um fundo no Panamá e mais tarde repatriaram o dinheiro para Portugal através do Regime de Regularização Tributária (RERT).


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