Dia 22, David Bowie não morreu

Dia 22, David Bowie não morreu
Eduardo Dâmaso 12 de abril de 2020

"A alguma distância, um grupo olhava para a televisão onde estava a ministra da Saúde, Marta Temido, em mais uma conferência de imprensa diária. Falando sobre a verdade estatística e proibições. Captou a minha atenção".

Dia primaveril lá fora. No bairro de Alvalade, o sábado costuma ser um grande dia. Em particular nestas épocas de Abril e Maio. As manhãs de sol convidam a passear. Convidam a ir ao mercado fazer compras, tomar café por uma das muitas esplanadas que por ali há, comprar os jornais e fazer uma primeira leitura rápida, sobretudo aqueles que ainda não se renderam à superficialidade de ver as gordas nos telemóveis.

Estas manhãs convidam a dar um passeio higiénico pelas avenidas largas e de passeios generosos. Hoje, sábado de aleluia, no calendário católico, corre mais um dia da nossa emergência. Para os católicos é dia de acender o círio pascal, uma grande vela que simboliza a luz de Cristo e que metaforicamente ilumina o mundo. Nas velas lá estarão as letras gregas alfa e ómega que alimentam a fé dos católicos com o seu significado material e simbólico de que Deus é o princípio e fim de tudo. Os que vêm no Covid-19 uma praga bíblica alimentarão a sua crença com o tempo pascal de ressurreição.

Mas para todos os demais, os tempos estão essencialmente para procurar as respostas na ciência e nos poderes terrenos; para sarar as angústias na materialidade do conhecimento e da investigação científica e de uma gestão pública de verdade e rigor, nestes tempos de excepção e emergência que tantas incertezas nos trazem. Foi o que fiz, numa incursão rápida ao quiosque, procurando os jornais do dia. Já com eles nas mãos parei num dos cafés que também vendem pão. Aproveitei para tomar um café forte, coisa que há semanas não fazia. E foi curioso. Ao lado, mas a distância própria da quarentena, alguém aproveitava para telefonar a um amigo a explicar as vantagens do bairro de Alvalade para estes tempos de emergência. "Há isolamento social, como nos recomendam, mas também há muito comércio local", dizia um senhor de meia-idade, sublinhando que numa saída rápida para ir ao pão dá para esticar as pernas e tomar café. A alguma distância dele, um grupo olhava para a televisão onde estava a ministra da Saúde, Marta Temido, em mais uma conferência de imprensa diária. Falando sobre a verdade estatística e proibições. Captou a minha atenção.

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