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No Brasil teve quase 50% dos votos e no global tem o dobro dos eleitores no estrangeiro do que Seguro. Discurso nacionalista e redes sociais explicam votação tão expressiva.
O candidato a Belém apoiado pelo Chega que vai disputar a segunda volta, André Ventura, ficou em segundo lugar a nível nacional e a quase oito pontos percentuais de António José Seguro. No entanto, nos votos no estrangeiro o caso é diferente. Não só Ventura ganha em muitos dos consulados, como consegue quase o dobro dos votos de Seguro no cenário global. A SÁBADO tentou perceber o que pode explicar este fenómeno junto de especialistas que dizem que experiência pessoal, discurso nacionalista e orgulho patriótico contribuem para este resultado. E a hegemonia nas redes sociais é um dos maiores trunfos do lado de Ventura.
Ventura mira a liderança da direita e projeta o Chega em São BentoTIAGO PETINGA/LUSA
Riccardo Marchi, politólogo especialista na direita radical portuguesa, autor do livro A Nova Direita Anti-Sistema: O Caso do Chega, começa por lembrar que não só Ventura como todo o partido Chega sempre se deram muito bem entre os imigrantes portugueses nas várias campanhas eleitorais. "O próprio líder do partido deslocou-se ao estrangeiro para fazer campanha junto das comunidades portugueses", lembra o politólogo italiano. No entender de Marchi, o Chega sempre percebeu que tinha aceitação nas comunidades nacionais no estrangeiro e que por isso sempre apostou em falar para essa população, com um "discurso inflamado sobre orgulho nacional e patriotismo" que sabe que "ressoa junto dos imigrantes".
Marco Lisi, licenciado em ciências políticas na Universidade de Florença e professor auxiliar do Departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigador do ICS, explica à SÁBADO que o discurso de orgulho no passado contribui em muito para assegurar um certo eleitorado que se revê no amor à pátria que foi "obrigado a abandonar" e que o Chega soube aproveitar bem.
Esse mesmo voto na diáspora capitaliza a descrenças nas "elites políticas" contra as quais Ventura tantas vezes fala e que estiveram no poder quando os emigrantes tiveram de abandonar o País.
E existe a questão do orgulho nacional tantas vezes proclamado por Ventura. O orgulho na história portuguesa, a resistência a adotar uma postura que não a do patriotismo total e orgulho em todo o passado. "Este tipo de temas toca num nervo sensível do nacionalismo dos imigrantes", reforça Marchi.
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'Hoje acho que é justo dizer isto, o país despertou': André Ventura reage ao resultado das presidenciais
Lisi lembra ainda que o nível de escolaridade pode ter a sua influência na escolha de candidato. Excluindo França e Suíça (que são bastiões de Ventura), o resto da Europa tendeu a dar o seu voto a Seguro e até Cotrim de Figueiredo "Países para onde vão migrantes mais qualificados podem ter maior tendência, à semelhança do que acontece no território nacional, a votar noutros candidatos que não Ventura", defende o politólogo. Marchi sublinha esta teoria, lembrando que os estudos mostram que a Iniciativa Liberal tem uma grande dificuldade em "entrar no eleitorado com menos ensino", enquanto o Chega tem mais dificuldade a impôr-se junto do eleitorado com maior escolaridade.
O caso brasileiro
Um dos casos de maior sucesso de Ventura é a votação que consegue no Brasil. Quase 49% dos portugueses que votaram no Brasil depositaram o seu voto no candidato apoiado pelo Chega. Marchi considera que existem três grandes factores que contribuem para este resultado: a relação com a direita bolsonarista, o discurso feito diretamente para a comunidade brasileira e até um ressentimento anti-Abril.
"A direita radical italiana tem comunidades fortes na Argentina, Brasil e Chile. O discurso patriótico de protesto funciona nestas partes do globo, mostram os estudos. E o Chega percebeu bem isso", começa por analisar "Sempre esteve muito perto da comunidade portuguesa na Venezuela - com um discurso anti-Maduro muito vincado - e no Brasil."
E o facto de não hostilizar de forma tão ostensiva os brasileiros em Portugal como faz com outros grupos, contribui para que os portugueses no Brasil não se sintam postos de parte. "E quando ele fala contra brasileiros é para condenar grupos criminosos como o PCC, os favelados e o banditismo que entram num imaginário do eleitor português a residir no Brasil", teoriza o politólogo italiano.
"Por fim, podemos avançar a hipótese que muitos portugueses foram para o Brasil no contexto da transição democrática, empurrados pelo PREC (Período Revolucionário em Curso) e pela revolução. E então esse discurso contra as elites pós Abril podem influenciar o sentido de voto"
As redes sociais
Lisi diz ainda que as redes sociais são um dos trunfos do candidato de direita mais radical. "No estrangeiro muitos portugueses recebem as notícias sobre Portugal exclusivamente através das redes sociais. E ali Ventura é quem tem mais seguidores e mais influência, quer seja no Facebook e no Twitter [X]. E agora até no TikTok", sublinha o politólogo.
Se os outros candidatos não conseguem furar a bolha das redes sociais, haverá muitos que nem são conhecidos pelos eleitores no estrangeiro já que não têm acesso aos seus conteúdos, votando na única candidatura que conhecem.
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