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Sindicatos da PSP e os agentes acusados na Esquadra do Largo do Rato: "Se forem culpados não os queremos cá"

Ricardo Santos 06 de março de 2026 às 18:44

Falámos com dirigentes sindicais, que apontam causas e preocupações, defendem o principio da inocência, mas são claros quanto ao que fazer em caso de condenação.

As detenções de sete agentes da Polícia de Segurança Pública, na passada quarta-feira, continuam a ter repercussões. O Ministério Público e a PSP divulgaram que as mesmas sucederam no quadro de “um segundo inquérito relativo a factos ocorridos na Esquadra do Rato”, com a investigação a incidir sobre "a eventual prática de diversos crimes, designadamente, tortura grave, violação, abuso de poder, ofensas à integridade física qualificadas". Em julho de 2025, dois outros agentes (Guilherme Leme e Óscar Borges) já tinham sido detidos ao abrigo da mesma investigação, encontrando-se já em prisão preventiva por crimes de tortura, violação, entre outros.

Sete agentes form detidos na esquadra do Largo do Rato, em Lisboa DR

Há uma caraterística comum nestes sete detidos: todos entraram na força policial nos últimos três alistamentos e têm, no máximo, 30 anos, sendo originários do Grande Porto, Margem Sul do Tejo, Lisboa e Madeira. E em 2024 todos estavam colocados na esquadra do Rato, em Lisboa. Os sete estão identificados em trocas de mensagens num grupo da aplicação Whatsapp, o que terá possibilitado a continuação do inquérito e as novas diligências.

Estes episódios ocorridos na Esquadra do Rato, em Lisboa, não deixam indiferentes as organizações sindicais ligadas à PSP. Paulo Jorge Santos, Presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), começa por salvaguardar que a situação está a ser tratada “por quem a deve tratar, o tribunal, e nós respeitamos a independência dos tribunais.” Ressalva a presunção de inocência até à conclusão do processo, mas salienta: “Parece-nos muito positivo que a denúncia tenha surgido da própria PSP, o que evidencia uma cultura e maturidade interna.” O presidente da ASPP não deixa, no entanto de referir que “este tipo de episódios, a serem dados como verdadeiros, são intoleráveis, configuram uma péssima imagem da PSP, mas a ASPP considera que não correspondem em nada à grande generalidade dos profissionais, os quais num quadro complexo e difícil, desenvolvem a sua atividade de forma responsável, na defesa da segurança, da paz pública, ao serviço do cidadão e das populações.”

Armando Ferreira, Presidente do SINAPOL - Sindicato Nacional da Polícia -, vai mais longe, apontando o dedo ao recrutamento. Começa com a cautela institucional que a situação acarreta, mas a sua conclusão é clara: “Se estas pessoas forem condenadas por um tribunal, com trânsito em julgado, por prática de situações que são desviantes daquilo que é a missão de um elemento da polícia, obviamente não devem estar na PSP. Nem nunca deveriam ter sido recrutadas. Se houver condenação com trânsito em julgado, significa que são culpadas e se são culpadas de ter um comportamento desviante não há lugar para pessoas assim na PSP. E nós não os queremos cá”. A questão do recrutamento acaba por ser a pedra de toque, para Armando Ferreira: “O problema que temos é a elevada falta de atratividade da profissão policial. Muitas das vezes, não estamos a recrutar os melhores dos melhores. Esses vão para profissões que pagam bem, não para a PSP ou para a GNR, que têm salários baixos.”

E reforça a sua opinião com números: “Desde 2019 não conseguimos preencher um concurso. Temos concursos que ficaram abaixo dos 50% das vagas. No último (anterior a este que está aberto e que teve 4000 candidatos) foram cerca de 3400 para 800 vagas. Foram apurados 615. Ainda assim tenho que reconhecer que houve uma grande triagem. Dos 615 estimamos que só 540 vão terminar o curso. Na primeira semana, desistiram não sei quantos que disseram que aquilo não era para eles.”

Armando Ferreira recorda o tempo em que, também ele, tentou a entrada na PSP. Foi em 1994: “Quando eu concorri, para 700 vagas, concorremos 17 000. Concorria muita gente com cursos superiores, mas neste momento, há pessoas que ingressam na PSP com médias de 9,5 porque arredondam para 10. Há aqui uma coautoria da culpa do que acontece na falta da valorização da profissão em Portugal. Há 32 anos a Polícia não era uma das profissões mais bem pagas, mas havia coisas que compensavam, como a reforma aos 55, os serviços de saúde gratuitos para os agentes e para a família, o respeito, não havia ninguém que sonhasse agredir um polícia.”

O presidente do SINAPOL não termina sem realçar outra realidade: “Temos pessoas com qualidade a entrar na Policia, gente que quer ser polícia e sacrifica até uma vida melhor em troca do sonho. Mas há outras cujos comportamentos desviantes tivessem sido detetados atempadamente, se a malha, a filtragem, fosse melhor, essas pessoas (até porque são as que têm médias baixas) não teriam entrado na Polícia.”

José Dias é Presidente do Sindicato do Pessoal Técnico da PSP e começa por ser perentório: “Somos frontalmente contra tudo o que sejam comportamentos desviantes e criminais relativamente à sociedade. A Polícia serve para defender o cidadão e não para fazer coisas anti-lei.” Sobre os detidos na investigação associada à Esquadra do Rato, também não tem dúvidas: “Têm que ser averiguados, investigados, verificar se cometeram os crimes ou não. Tudo leva a crer que sim. Se for confirmado, têm que ser condenados.”

A natureza dos crimes não deixou o Presidente do SPT indiferente: “São crimes gravíssimos! E o que choca mais é serem cometidos contra pessoas praticamente indefesas, imigrantes em Portugal. É realmente um abuso face aos direitos, liberdades e garantias.” Não esquece ainda a imagem que fica para as forças policiais: “Fica afetada a imagem da Polícia. Quero que se cumpra a lei e condene-se quem tem que se condenar, mas com provas. Isto é uma coisa completamente absurda. No meu tempo, não me lembro de uma coisa destas na esquadra. É evidente que havia umas bofetadas, mas fazer este tipo de tortura é demasiado baixo e têm que ser punidos severamente.”

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