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Seguro cita Carney sobre potências médias e defende "comunidade atlântica ampla"

Lusa 16 de junho de 2026 às 13:54

Na conferência comemorativa do 2.º aniversário do canal NOW.

O Presidente da República citou esta terça-feira o primeiro-ministro do Canadá sobre o papel das potências médias e defendeu a construção de uma "comunidade atlântica ampla", conjugada com uma "parceria renovada com os Estados Unidos".

Discurso do Presidente da República no Lisbon Conference

Em matéria de relações transatlânticas, segundo António José Seguro, deve haver "a ambição e a capacidade de construir uma comunidade atlântica ampla, assente em valores e interesses partilhados", com "um olhar" sobre o Atlântico "que não se pode fixar apenas nos Estados Unidos", e que passa por "uma ponte entre a Europa e o Canadá, a América Latina e a África".

Num discurso na abertura de uma conferência comemorativa do 2.º aniversário do canal NOW, num hotel de Lisboa, o chefe de Estado criticou as "superpotências que querem ser países-império" e que se "que se revelam, primordialmente, Estados bélicos" - visando também, embora sem os nomear, os Estados Unidos da América.

António José Seguro apontou, entre outros exemplos, "as ameaças sobre a soberania da Gronelândia e o controlo do canal do Panamá" e "a intervenção militar em Caracas, na Venezuela", assim como "a invasão da Ucrânia pela Rússia" e "a militarização de ilhas artificiais no Mar do Sul da China".

O Presidente da República referiu ainda "as guerras das tarifas e das terras raras, os ciberataques, a guerra híbrida, as frotas fantasma" e "a própria corrida ao espaço e à Lua" em "disputa pela apropriação de recursos" como sinais de que se entrou "na época do 'hard power', em que ressurgem comportamentos de Estados-império".

A seguir, citou a encíclica "Magnifica Humanitas", do Papa Leão XIV sobre o desenvolvimento da inteligência artificial e o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, em Davos, sobre "a rutura na ordem mundial" e o papel das potências médias, como "talvez os dois grandes testemunhos de reflexão produzidos este ano à escala mundial".

O chefe de Estado destacou a frase de Carney "o poder dos menos poderosos começa com a honestidade", e afirmou: "Retenham esta frase, porque é precisamente aqui que a Europa e Portugal têm de se situar".

António José Seguro reiterou, neste contexto, a necessidade de "autonomia estratégica europeia", que no seu entender "não se pode reduzir a um slogan, é uma condição de sobrevivência" e exige "uma defesa comum, com um arranjo institucional sólido e recursos adequados" e "autonomia energética e tecnológica".

"E exige, sublinho-o nesta conferência dedicada às relações transatlânticas, uma parceria renovada com os Estados Unidos. Um relacionamento que perdure, com compromissos entre iguais, com lealdade e reciprocidade e sem subserviência nem rutura. É uma ilação que faz parte do nosso dia a dia, fácil de concluir: a verdadeira amizade não exige concordância permanente, afirma-se, sim, com respeito mútuo", acrescentou.

Para o Presidente da República, "outra ilação", que já se está "a tentar concretizar", é "um olhar" sobre o Atlântico mais alargado, "que não se pode fixar apenas nos Estados Unidos".

"A ambição e a capacidade de construir uma comunidade atlântica ampla, assente em valores e interesses partilhados, é uma das maiores oportunidades estratégicas do presente. Mais ainda, quando o mundo se fragmenta em blocos. Portugal, pela sua história, pela sua língua e pela sua geografia, está em posição singular para ajudar a tecer essa rede", defendeu.

O Presidente da República sustentou que a Europa tem um modelo a defender e não pode abdicar dos seus valores: "Uma construção secular que tem a sua essência em valores como a democracia, a dignidade humana, o Estado de direito e a procura da verdade dos factos. São as nossas âncoras".

"Nas estruturas de poder, a rutura já começou, e não por escolha nossa. Mas no que verdadeiramente importa, o mundo que queremos construir sobre esta rutura, a escolha permanece inteiramente nas nossas mãos, e é bom que seja feita depressa, porque, como nos avisam, o amanhã não é longe demais", declarou.

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