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Como funcionam as lojas secretas da Maçonaria

António José Vilela 05 de maio de 2026 às 22:58

Na loja Mozart, o venerável Nuno Vasconcellos fazia as iniciações de maçons com uma “espada flamejante”. O ritual servia para os avisar de que não podiam trair os segredos da maçonaria.

Os maçons já estão dentro do templo e é ao som de Orfeu e Eurídice, a dança dos espíritos abençoados do compositor austríaco Christoph Willibald Gluck, que as cerimónias da loja começam. O venerável mestre está vestido como todos os outros — fato e gravata escuros, camisa e luvas brancas —, mas distingue-se pelo colar que tem ao pescoço, com uma “estrela flamejante” bordada. À cintura, tem um avental com símbolos maçónicos.

Sábado

Entre 2008 e 2009, o irmão Nuno Vasconcellos, presidente do grupo Ongoing, foi o venerável mestre da polémica loja secreta Mozart 49, substituindo no cargo Jorge Silva Carvalho, então director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) e hoje quadro da Ongoing.

Como manda a lei interna maçónica, além de dar orientação espiritual aos irmãos, Vasconcellos escolheu também a quase totalidade dos 14 oficiais desta loja poderosa, reerguida no fim de 2006. E interveio decisivamente na iniciação de novos maçons, nos quais se incluirá Luís Montenegro, hoje líder parlamentar do PSD.

Há cerca de três anos e meio, o então deputado do PSD eleito pelo círculo de Aveiro era um político discreto — só em Junho de 2011 foi escolhido para um dos lugares mais poderosos do Parlamento; e só há uma semana foi exposto publicamente como maçom na sequência da auditoria parlamentar aos serviços secretos e ao papel do irmão Jorge Silva Carvalho em vários escândalos, como o do alegado acesso ilegal de espiões à facturação telefónica de um jornalista do Público.

A SÁBADO teve acesso a documentos internos secretos da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP) que descrevem o objectivo da loja Mozart e de duas outras — a Mercúrio e a Brasília: apostar na “intervenção social e política”, no “recrutamento de jovens quadros promissores” e na “discrição”.

Nos mesmos documentos, são ainda detalhados vários rituais. Em 2008, quando Luís Montenegro foi iniciado na maçonaria, a loja Mozart reunia-se numa sala em forma de rectângulo, orientada de oriente para ocidente e coberta por um tecto azul com constelações. O oriente do templo estava ocupado por um estrado ao qual se chegava subindo três degraus.

No centro, o venerável mestre Nuno Vasconcellos sentava-se numa cadeira em frente a uma mesa triangular tapada por um fino dossel vermelho com franjas douradas. Em cima tinha a carta constitutiva da loja, uma “espada flamejante”, o malhete e um candelabro com uma das três luzes acesas. Mesmo assim via-se bem um delta luminoso com letras hebraicas que tinham de ser lidas da direita para a esquerda: “Iod, Hé, Vau, Hé.”

Por trás da cadeira do venerável mestre estavam representadas as imagens do Sol (à direita) e da Lua (à esquerda). Abaixo do estrado, encostado aos três degraus, havia um Altar dos Juramentos, que tinha três objectos fundamentais para iniciações como as de Luís Montenegro: a Bíblia, o esquadro e o compasso.

No início da cerimónia de iniciação, quando ainda está fora do templo, o futuro maçom ouve as palavras bruscas do venerável mestre:

“Meus irmãos! Armem-se das vossas espadas: está um profano à porta do templo.”

Todos obedecem, pegando na “espada flamejante” com a mão esquerda. Já lá dentro, um dos “irmãos” (o guarda-interno) aponta a sua espada ao coração do iniciado.

“Trata-se de uma espada sempre erguida para castigar o perjúrio. É o símbolo do remorso que rasgará o seu coração se se tornar traidor à fraternidade em que pretende ser admitido”, avisa-o o venerável.

Pouco depois, explica ainda melhor o principal dever de um maçom: o “absoluto silêncio sobre tudo o que puder ouvir ou descobrir entre nós e sobre tudo o que vir, ouvir ou souber depois” e nunca revelar a identidade dos irmãos.

Foi precisamente a vontade de secretismo que fez rebentar o escândalo na última semana, por causa do trabalho da Comissão dos Assuntos Constitucionais, na Assembleia da República. Em causa esteve sobretudo a divulgação, pelo jornal Público, do relatório de trabalho do PSD e de uma versão posterior que já juntava os contributos do CDS, do PCP e do BE (o PS recusou fazer um relatório por defender que não devem ser públicas as matérias sobre os serviços secretos tratadas na Comissão).

A diferença? Na versão conjunta já não constavam as suspeitas iniciais do PSD, que reproduziam as declarações feitas no Parlamento por Marques Júnior, presidente da Comissão de Fiscalização dos Serviços Secretos, sobre um perigoso triângulo que envolveria a maçonaria, os serviços secretos e empresários.

Na ausência de um consenso entre os partidos, o PSD manteve as suas conclusões, segundo as quais há “indícios e suspeitas” do envolvimento de Jorge Silva Carvalho e de outros espiões em “grupos de pressão” ou “sociedades secretas, nomeadamente ramos da maçonaria”; e que esse envolvimento afecta a operacionalidade, “a credibilidade e o prestígio dos serviços de informações”, até porque também terão sido identificadas partilhas de informações do SIED com o grupo Ongoing.

Na sequência destas notícias, foram divulgados pela comunicação social vários nomes de outros membros da maçonaria, como os líderes parlamentares do PS, Carlos Zorrinho (cuja entrada no Grande Oriente Lusitano tinha sido revelada pela SÁBADO em Junho de 2007), e do CDS, Nuno Magalhães.

Já em Dezembro de 2007 e Janeiro de 2008, dois artigos de investigação da SÁBADO revelaram que havia vários espiões que eram “irmãos” de políticos do PS e do PSD, de empresários e de jornalistas em lojas maçónicas da Grande Loja Legal de Portugal e do Grande Oriente Lusitano (GOL). Três deles estavam na Mozart e por lá se mantiveram até hoje, obedecendo a veneráveis mestres como Nuno Vasconcellos: Jorge Silva Carvalho, do SIED; João Alfaro, do SIS; e F. R., director de segurança do SIS e do SIED (a SÁBADO revela apenas as iniciais de todos os que ainda trabalham nos serviços de informações, uma vez que as suas identidades são consideradas segredo de Estado).

Os dois primeiros espiões trabalham agora na Ongoing de Nuno Vasconcellos, que também contratou dois inspectores da PJ em licença de vencimento de longa duração.

Para evitar que os seus membros sejam expostos, nos últimos anos a maçonaria tem adoptado várias normas de segurança — cada vez mais apertadas. Os documentos internos a que a SÁBADO teve acesso mostram que, num esforço de manter a sua identidade em segredo, os nomes verdadeiros dos “irmãos” foram substituídos pelas iniciais. Em 2006, o decreto de fundação da loja Brasília falava expressamente do espião Jorge Silva Carvalho e dos actuais deputados socialistas Duarte Cordeiro e Rui Paulo Figueiredo; mas em 2008 uma lista dos vários veneráveis mestres já identificava o líder da Mercúrio apenas como R. P. F. (Rui Paulo Figueiredo) e o líder da Mozart como N. V. (Nuno Vasconcellos).

Em alguns documentos do GOL, as iniciais não são consideradas suficientes para manter o segredo — por isso, são usados nomes de código dentro das lojas. Há referências, por exemplo, a “Egas Moniz”, a “Fernando Pessoa” ou a “Platão”. O cantor Vitorino é o “Mestre Hélio”.

Há iniciações tão secretas que nem os irmãos as conhecem. Uma fonte interna garante à SÁBADO que Isaltino Morais, por exemplo, entrou na GLLP sem que quase ninguém soubesse: “O próprio grão-mestre Trovão do Rosário chegou a dizer a ‘irmãos’ que era boato, mas depois confirmou-se, sem que o nome de Isaltino Morais fosse afixado” num quadro na parede da sede da GLLP, como é comum com todos os outros novos maçons.

Em alguns momentos, as preocupações de segurança chegaram ao extremo. O GOL aprovou esmagadoramente na Grande Dieta (o parlamento da maçonaria onde estão representadas as lojas) a criação de uma espécie de serviços secretos para averiguar as fugas de informação. A SÁBADO não sabe se o projecto se concretizou, mas já em 2010 foi nomeada outra comissão, integrada pelo maçom Adérito Serrão, presidente do Instituto de Meteorologia, para também investigar fugas de informação.

Uma das recomendações foi evitar ao máximo o uso do email, sobretudo no envio de documentos confidenciais do GOL para listas colectivas de endereços electrónicos — foi precisamente um desses emails que o jornal Público revelou na semana passada, expondo os nomes de alguns dos alegados mais de 40 irmãos da loja Mozart.

Nas últimas eleições para grão-mestre do GOL, um dos candidatos colocou o seu programa eleitoral num site que apenas permitia o acesso uma única vez através de um código secreto. E cada visitante só conseguia estar no site durante alguns minutos e não tinha a possibilidade de imprimir nem de gravar ficheiros.

Os locais de reunião também são uma preocupação de segurança. Os elementos da loja Mozart juntavam-se todas as primeiras segundas-feiras de cada mês, inicialmente em casa do então grão-mestre Trovão do Rosário; depois, no edifício degradado da sede da GLLP, em Alvalade; e finalmente no Bairro Alto, na Rua João Pereira da Rosa, n.º 14, cuja fachada é a Associação Cultural Albert Pike.

Mais tarde, a loja, como acontece com outras, passou também a reunir-se em hotéis, onde os maçons montavam templos improvisados: o Ibis, o Villa Rica, o VIP Zurique, o Marriott (o antigo Penta), em Lisboa; o Solplay, em Oeiras; e o Hotel Costa da Caparica são apenas alguns dos preferidos dos maçons.

Os encontros começam após a chegada dos “irmãos”, que trazem consigo pastas pretas onde transportam aventais, estandartes e colares. Tudo é feito na maior discrição, mesmo quando se juntam dezenas de veneráveis mestres que representam as várias lojas.

Numa acta do conselho de veneráveis da GLLP, realizada no Hotel Zurique a 24 de Junho de 2006, lê-se que o grão-mestre Trovão do Rosário abriu os trabalhos com os 47 veneráveis dizendo que o encontro ocorria em “instalações devidamente ocultas de profanos”.

Anos depois, a SÁBADO conseguiu fotografar e filmar de forma não autorizada a entrada de dezenas de maçons para a assembleia geral da Grande Loja Legal de Portugal, na sede de Alvalade, em Lisboa. As imagens publicadas nesta edição mostram os irmãos a chegar com aventais e estandartes debaixo do braço, a aparecer à janela vestidos de forma ritual e a falar uns com os outros antes da cerimónia (o vídeo pode ser visto em www.sabado.pt). A SÁBADO tinha ainda fotografado uma outra reunião, em Março de 2007, no hotel VIP Zurique, em Lisboa.

A vida de um maçom é feita de segredos, quer sejam figuras conhecidas — como o ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas (GOL); o presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras (GOL); o ex-director da PSP, Oliveira Pereira (GOL); o presidente do Sindicato dos Bombeiros Profissionais, Fernando Curto (GOL); e o ex-director do jornal Expresso Henrique Monteiro (GOL) — ou pessoas mais discretas, como os espiões T. C., J. F., R. N. P., N. C. e C. C.

Quando percebe que o seu nome corre o risco de ser revelado, a esmagadora maioria responde de forma evasiva. Confrontados pela SÁBADO em vários momentos ao longo dos últimos anos, várias figuras influentes evitaram comprometer-se.

Miguel Relvas: “Não comento esse assunto.”

Filipe Costa, então chefe de gabinete do ministro da Justiça Alberto Costa: “Não tenho nada a dizer sobre isso.”

Leopoldo Guimarães, actual venerável da loja Mozart: “Não posso falar sobre isso. E mesmo que pertencesse, poderia dizer-lhe que não pertencia.”

Nuno Vasconcellos: “Quer falar comigo sobre mercearia? Sobre os meus filhos e clubes privados a que possa pertencer, não falo.”

Mas também há casos como os de António Costa, director do Diário Económico, e de Armindo Monteiro, vice-presidente da CIP, que estavam na alegada lista de emails de irmãos da loja Mozart, que esta semana negaram à SÁBADO serem maçons em qualquer loja.

“Não posso (...) aceitar que me associem a causas às quais não pertenço”, disse Armindo Monteiro.

No total, em Portugal, há cerca de três mil maçons em todas as obediências. São tantos que se encontram em todo o lado. Na mesa de reuniões da concertação social, por exemplo, o presidente da CIP, António Saraiva (que segundo documentos internos a que a SÁBADO teve acesso foi venerável mestre da loja Mozart, e cujo nome aparecia também no email revelado pelo Público), senta-se a negociar com o líder da UGT João Proença, do GOL — ou seja, há um maçom do lado dos patrões e outro do lado dos trabalhadores.

No governo também se juntam irmãos. O maçom Rui Pereira foi ministro da Administração Interna de José Sócrates e teve como secretários de Estado, em diferentes momentos, os irmãos José Magalhães e Vasco Franco, ambos do GOL. No gabinete do MAI trabalharam ainda três maçons da loja Mercúrio: Luís Rebelo de Sousa, sobrinho de Marcelo Rebelo de Sousa, e os colaboradores externos contratados Paulo Pereira de Almeida e Dário Pereira Almeida.

Os maçons estão proibidos “formal e rigorosamente” de ter discussões políticas, religiosas e de negócios durante as sessões das lojas. Mas estar na maçonaria é também para muitos irmãos ir além dos rituais. Os maçons são muito activos em encontros informais em restaurantes e depois das sessões de loja e também na intervenção em instituições que incluem não-maçons influentes.

Os exemplos são vários e vão da cultura (Associação Fernando Teixeira, Academia do Livre Pensamento, Fundação Orada, Vitriol) à investigação científica (IDD) e da segurança (OSCOT) às relações económicas internacionais (Instituto Luso-Árabe para a Cooperação e Associação de Amizade Portugal/EUA).

É também aqui que se identifica e faz o recrutamento privilegiado de novos maçons, criando laços de solidariedade pessoal ainda mais fortes. E há recrutadores que têm feito muitos convites ao longo dos últimos anos: o empresário Paulo Noguês, ligado ao PS, o ex-secretário de Estado do PSD Neto da Silva e o actual deputado socialista Rui Paulo Figueiredo.

Outros recrutadores são Duarte Cordeiro, ex-líder da Juventude Socialista e actual deputado, e o espião Jorge Silva Carvalho, que foram dois dos fundadores da loja Brasília, que actua no eixo Coimbra-Aveiro-Porto, precisamente a loja do social-democrata Marco António Costa, actual secretário de Estado da Segurança Social.

“As juventudes partidárias, os universitários, os jovens gestores de sucesso e os quadros superiores são os alvos” quando se tenta atrair novos membros, conta à SÁBADO um maçom que já recrutou pessoas para o GOL e para a GLLP.

A maçonaria gosta de estender a sua influência a não-maçons. Por isso, organiza regularmente encontros nos quais tenta ter personalidades influentes da política e da economia. No último ano, segundo documentos internos a que a SÁBADO teve acesso, a loja Europa, do GOL, convidou para conferências António Mexia, presidente da EDP; Carlos Santos Ferreira, presidente do Millennium BCP; Ângelo Correia, gestor social-democrata e antigo patrão de Pedro Passos Coelho; Rui Vilar, ex-presidente da Gulbenkian; e Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia.

António José Seguro foi também um dos políticos que aceitaram participar em encontros promovidos pela maçonaria. Poucos meses antes de concorrer a líder do PS, esteve pelo menos duas vezes em discretos eventos organizados pela GLLP, onde se insere a loja Mozart.

O primeiro decorreu entre a elite da loja Pisani Burnay dos Altos Graus do Supremo Conselho do Grau 33. Foi na manhã de 17 de Abril de 2010, um sábado, no Hotel D. Afonso, em Monte Real, Leiria, durante o seminário A Ibéria no Contexto Histórico-Político.

Segundo o programa, os restantes cinco discursos foram feitos por maçons portugueses e espanhóis dos altos graus: Agostinho Garcia, soberano grande comendador; José Carlos Nogueira, o anterior soberano; José Manuel Anes, ex-grão-mestre da GLLP e grau 33 (o mais alto); e José Alves Dias, grau 33 ligado ao GOL. A documentação interna da maçonaria não identifica o maçom espanhol que falou, mas diz que se previa a “participação de forte representação de irmãos vindos de toda a Espanha”.

Menos de um ano depois, em Março de 2011, António José Seguro foi jantar a Oeiras convidado pela Associação Fernando Teixeira, uma das instituições que a maçonaria usa para intervir na sociedade civil. Nesse dia, Seguro faltou ao encontro entre José Sócrates e os deputados do grupo parlamentar do PS.

Na altura, questionado pela SÁBADO, o actual líder do PS recusou confirmar sequer ter recebido os convites: “Não quero comentar esse assunto.” Só o assumiria meses mais tarde, quando já estava em campanha para a liderança do partido:

“Eu pelo-me por um bom debate. Alguns debates são públicos, outros privados.”

Na semana passada, o último escândalo a envolver a maçonaria forçou-o a ser mais claro. Quando os jornalistas lhe perguntaram se o registo de interesses dos titulares de cargos políticos devia obrigar a especificar ligações a obediências maçónicas, o líder do PS respondeu que está aberto à discussão e que defende a “transparência na vida pública e na vida política”.

Artigo originalmente publicado a 12 de janeiro de 2012.

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