Inevitabilidade das contradições
José Pacheco Pereira Professor
18 de fevereiro

Inevitabilidade das contradições

As autoridades sanitárias não querem que haja o menor pretexto para as pessoas saírem à rua, mesmo que nessas deslocações cumpram as regras do distanciamento e usem máscara.

Vistas uma por uma há muitas medidas do estado de excepção que parecem absurdas. Por que razão as tabacarias estão abertas – e o jogo barato continua de vento em popa – e as livrarias estão fechadas? Por que razão as lojas de electrónica e telemóveis estão abertas e as papelarias estão fechadas? Por que razão não se pode passear ao ar livre junto ao mar e não pode ninguém sentar-se num banco de jardim? E passear um cãozinho de estimação e não um paralítico numa cadeira de rodas? Por aí adiante.

Há uma razão muito simples e compreensível: as autoridades sanitárias não querem que haja o menor pretexto para as pessoas saírem à rua e deixarem as casas, seja qual for o motivo das suas deslocações, mesmo que nessas deslocações cumpram as regras do distanciamento e usem máscara. É uma medida ad terrorem que não tem justificação em quase todos os casos individuais de proibição, com a provável excepção da restauração em espaços fechados, mas que, no seu conjunto, é a medida que mais rápidos resultados dá para descongestionar os hospitais e os serviços de saúde.

Até aqui compreende-se. A devastação para uma parte da economia, e não para toda, terá de se pagar mais tarde. De qualquer modo, há excepções de monta e graves, mas talvez inevitáveis. A mais evidente são os transportes públicos, que curiosamente quase nunca são discutidos a não ser para se negar o seu papel na propagação da pandemia. É difícil de acreditar que não tenham nenhum, embora de novo se compreenda a relutância de os encerrar, até porque isso atingiria a parte da população que mais depende deles e não anda de carro. E depende deles… para ir para o trabalho.
Isso porque também pouco se discute o trabalho que tem pela sua natureza de ser presencial, que não pode ser feito em casa. E fábricas, oficinas, alguns escritórios, empresas agrícolas têm sempre trabalhado, nalguns casos com pouca atenção às condições sanitárias dos trabalhadores. Não há contágios nesses locais de trabalho ou só em casa das famílias? E se não pode haver ajuntamentos de pessoas diante de um postigo de um café, que se pode tomar numa autoestrada, como não ver a aglomeração de transportadores de takeaway, ou mesmo de clientes directos, diante de um restaurante, a conversarem e a conviverem enquanto esperam pela sua vez?

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