Há linhas vermelhas? Cada vez menos
José Pacheco Pereira Professor
02 de setembro

Há linhas vermelhas? Cada vez menos

Rui Rio ainda não percebeu os estragos que coisas como o acordo açoriano com o Chega, algumas posições dúbias sobre o Chega e candidaturas como a Amadora fazem ao PSD. Esta é uma linha vermelha que pelo menos um líder do PSD nunca atravessaria. Chamava-se Francisco Sá Carneiro.

A história das "linhas vermelhas" está muito abastardada pela simples razão de que toda a gente evita defini-las, por causa das consequências, e porque muito poucos as cumprem. Mas que as há, há. Como as bruxas.

Por exemplo, quando alguém de uma candidatura autárquica da Amadora coloca noutro município um grande cartaz a dizer "No dia 26 de Setembro o sistema vai tremer", este cartaz cujo conteúdo é tipicamente do Chega, mas não é do Chega, faz parte da natural liberdade de expressão que a democracia assegura. O problema é onde ele está: em frente da Assembleia da República. O "sistema" é aquilo que a Assembleia da República personifica, a democracia. O que o cartaz diz é "no dia 26 de Setembro, data das eleições autárquicas, o resultado da Amadora vai fazer tremer o "sistema", a democracia parlamentar, representativa, a democracia. Juras em contrário não ocultam o significado. Para além da gigantesca presunção, o cartaz ataca todos os que estão lá dentro, deputados, bons ou maus, seja o que forem, do Chega, do CDS, do PSD, do PS, do Bloco, do PAN, dos Verdes, do PCP e os deputados independentes. Sim, o cartaz afronta os mesmos partidos que o assinam, que estão representados na Assembleia, o PSD e o CDS. O facto de o cartaz da candidatura da Amadora estar colocado em Lisboa, significa que se pretende dar significado nacional à crítica.

Em complemento deste cartaz, a mesma candidatura, com a mesma gigantesca presunção, colocou outros cartazes diante das sedes de vários partidos, o PS, o PAN, o Chega e não se sabe se diante do PCP ou do BE, como seria coerente, mas não estão lá. Ou tiveram medo de lá ir, ou depois de colocados desapareceram. Não há cartazes deste tipo diante das sedes do PSD e do CDS. Os textos são elucidativos, no dia 26 de Setembro, "os tachistas políticos vão tremer (PS), "os eco-fascistas-animalistas vão tremer" (PAN), e um meigo "os populistas vão tremer" (Chega). De novo, o alvo são os partidos da democracia, sendo que aqui não houve coragem de os colocar em todos, por nenhuma boa razão, todas más. Os partidos são atacados enquanto instituições, porque senão não teria sentido a lógica de os colocar diante das sedes.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
Opinião Ver mais