A politização da vacina
José Pacheco Pereira Professor
26 de agosto

A politização da vacina

O negacionismo é uma atitude política que deve ser tratada politicamente. Ele é um dos traços do actual populismo, que vive da desconfiança com os “poderosos”, incluindo os cientistas e o saber.

Não há nenhum argumento sério, fundado, aceitável sequer, para dizer, como dizem os nossos negacionistas, que "as vacinas matam". Já não me refiro sequer às teses conspirativas mais delirantes, como aquela que diz que com a vacina vão uns nano chips criados por Bill Gates para assegurar o controlo do corpo e da mente. Será que os filhos dos negacionistas não têm vacina nenhuma do Plano de Vacinação? Será que eles próprio nunca foram vacinados e é por isso que não "morreram"? Qual é a diferença entre a vacina contra a Covid e as outras? Se deixarmos de lado os números e as fake news que alimentam os cartazes das manifestações negacionistas, há alguma evidência do risco grave de se ser vacinado contra a actual pandemia? E podem garantir, contra tudo o que se sabe, que não há vantagens, mesmo sem as vacinas serem perfeitas? Resumindo e concluindo, a questão do negacionismo da pandemia e da vacina não suporta o teste do bom senso.

A questão é outra. A vacina, como todas as coisas, tem um conteúdo social e político, não é daí que vem o mal. A eficácia do plano de vacinação, o papel do governo, do sector público ou privado, os abusos e o passar à frente, a solidariedade ou não com os países mais pobres, mesmo o modo como se trata com os negacionistas, qual a autoridade individual ou familiar para recusar a vacina, esta ou outra, às suas crianças, que regras de confinamento ou desconfinamento são aplicadas, como se pune a sua violação, há mil e uma questões políticas associadas com a pandemia e com as vacinas.

Mas o negacionismo é igualmente uma atitude política que deve ser tratada politicamente. Ele é um dos traços do actual populismo, que vive da desconfiança com os "poderosos", incluindo os cientistas e o saber, do mesmo modo que implica a não aceitação da autoridade democrática. Quando a mecânica do populismo do "nós" e "eles" se desloca dos alvos mais estritamente políticos, para a educação, a ciência, a segurança, a justiça, o grau de disfunção é consideravelmente maior. E mais, este populismo comunica entre si, o negacionismo tem fortes relações com o Chega, uma parte mais activa dos manifestantes contra as vacinas está nas manifestações do Chega, e partilha a mesma zanga e ressabiamento contra o mundo.

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