Sobreviver, isso sim foi um milagre
Carlos Rodrigues Lima Subdiretor
05 de março

Sobreviver, isso sim foi um milagre

À medida que quem nos governa vai abrindo a boca para contar como tem sido gerida a crise da Covid-19, mais convencidos ficamos de que, de facto, existe algo de transcendental que nos salvou de uma catástrofe total. Só isso explica como ainda estamos vivos

A avaliar pela última edição do Expresso, a decisão de montar uma cerca sanitária no concelho de Ovar, em 2020, foi tomada entre um "passa-me aí a salada" e um "há mais vinho?". Sim, foi durante um almoço no palácio de São Bento. Nem só os grandes negócios se decidem à mesa, as cercas sanitárias também. O País só funciona assim: à hora de almoço.

Os tais bastidores da gestão da pandemia são, em resumo, assustadores e revelam à saciedade como o País é incapaz de se governar e como quem governa ou levou um banho de comiseração ou se sente especial, como que fazendo parte de um grupo de eleitos: "Sempre que saía de casa vinha com vontade de vir trabalhar. É uma questão de compromisso, estamos por uma coisa superior", disse o secretário de Estado Lacerda Sales, o primeiro a chegar à fila dos eleitos. Os governantes estão, apenas e só, a cumprir um dever, mas há sempre quem ache que, a montante, há um qualquer desígnio superior a guiar-lhes a mão para assinar corretamente o despacho.

É perante declarações como esta, e outras, que mesmo os não crentes são tentados a acreditar numa intervenção divina, seja de Deus, Alá, Buda ou Maradona, que salvou Portugal de uma catástrofe ainda maior. Um quarto segredo de Fátima que nos livrou de consequências ainda mais penosas, porque a radiografia da governação é paupérrima. Começando por Tiago Antunes, o secretário de Estado adjunto de António Costa. Um verdadeiro vendedor de banha da cobra: "Muitas vezes foi preciso assustar as pessoas e explicar que as coisas estavam piores do que se imaginava, muitas vezes foi preciso antecipar a opinião pública e influir na psicologia coletiva." Ou seja, como todos se lembram, a gestão da pandemia foi tão má que agora aparece o secretário de Estado a dizer que o Governo influiu na "psicologia coletiva". Ora, se houve influência do Governo nisso da "psicologia coletiva" foi através de sinais contraditórios dados à opinião pública, como a história do milagre, do ganhar o verão, ganhar o Natal e por aí em diante.

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